Homem-Formiga

Nov 7, 2015

Imagens

Mês passado, enquanto trabalhava em meu escritório em casa, um pequeno grilo pulou da janela para do lado de minha mesa. Ele “averiguou” o local e ficou no ponto mais alto do recinto: o suporte fechado de minha câmera. Passados três dias, resolvi alimentá-lo com um pedaço de folha de alface e uma uva. Logo foram folhas do manjericão e salsinha, direto dos meus vasos do quintal. Quando ele ia passear em torno do aquecedor, fui aos poucos abrindo o suporte onde ele ficava até atingir quase a altura do parapeito da janela, no que ele voltava a escalá-lo, sempre permanecendo parado por longas horas no seu ponto mais alto.

Até que um dia preparei o segurador do suporte para apontar diretamente para a janela, quando ele finalmente colocou seu plano em ação: deu um salto “gigantesco” para fora, permanecendo um tempo no terraço, mas logo desaparecendo para sempre.

Essas duas semanas com esse grilo me ensinou a prestar mais atenção ao mundo microscópico que existe em volta de nós, mamíferos de tamanho médio. Há toda uma fauna e flora bem debaixo de nossos narizes, com sua lógica e instinto próprios. Não se pode chamar um grilo de “fofinho”, mas se pode perceber beleza no mecanismo mais simples da vida em ação.

Dessa forma, mesmo que o filme da Marvel ultrapasse vários limites do razoável tentando vender a ideia de um homem que possa encolher e esticar rapidamente através do uso de uma roupa especial e comandar diferentes tipos de formigas que surgem instantaneamente onde quer que ele precise e sincronizem ações impossíveis, a ideia de enxergar as coisas por um outro ângulo se encaixa perfeitamente na proposta do diretor Peyton Reed (do ótimo Separados pelo Casamento), que une um furtivo ladrão que tenta se recuperar de sua vida de crimes e se tornar o herói que sua pequena filha tem como certo, a relação ressentida entre outro pai e sua filha que tentam reconstruir um sonho após a morte dramática de sua mãe, e um vilão cartunesco que evoca os poderes do mal que a produtora marca Stan Lee tanto tenta ridicularizar apenas como fonte de tensão para o seu pouco atento espectador.

Com efeitos digitais que funcionam bem pela velocidade das cenas de ação e pela fotografia onírica e escura de Russell Carpenter (Titanic, True Lies), a história escrita por um batalhão de roteiristas que começam já pela origem nos gibis possui toques de humor já conhecidos dos fãs de filmes de super-herói, onde a melhor sacada é “esse é um cachorro muito estranho” (na verdade, é uma formiga gigante). Protagonizado por Paul Rudd, que também participa do roteiro e da produção, o elenco é afiado, embora não brilhante, e contém pelo menos uma estrela significativa: Michael Douglas, que mantém sua boa forma de “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” em um trabalho bem menos ambicioso (é um filme de super-herói sem muitos respaldos na realidade, lembra?), mas que tenta a todo momento usar seus personagens como âncoras emocionais, mesmo que não passem de estereótipos bem conduzidos.

Referenciando sempre a fonte de dinheiro da produtora, com seus Vingadores e a dúzia de filmes e as centenas de milhões que isso representa, Homem-Formiga já chega fazendo parte honorária do já famigerado “projeto Vingadores”, citando a S.H.I.E.L.D. (que já possui série própria) e a Hydra (Capitão-América, 2011), o bem e o mal cartunizados para o deleite do fã de embates binários.

Infelizmente, todo esse ímpeto em referenciar figuras do universo Marvel ganha contornos muito pálidos quando o filme tenta se encaixar no atual momento que vive o mundo, fazendo de Scott Lang um pretenso herói por se vingar de uma empresa gananciosa que enganou um monte de gente (ecos da crise de 2008), e literalmente encolhendo uma outra companhia dona de uma ideia de dezenas ou centenas de bilhões. A discussão de patentes sequer é citada, mas é o grande vilão do filme. Se a companhia fundada pelo Dr. Hank Pym (Douglas) mas conduzida por caminhos obscuros pelo cruel Darren Cross (Corey Stoll), que sacrifica ovelhinhas, patentear um mecanismo de alteração de tamanho molecular da matéria, se tornará automaticamente dona do mundo, mesmo que o mecanismo já tivesse sido inventado há muito tempo no porão da casa de um velho senhor.

Portanto, ignorar o subtexto mais interessante para se render em seu terceiro ato para o velho duelo de um super-herói vs super-vilão é voltar para o próprio ano da crise, 2008, quando um Homem de Ferro ainda jovem estragava seu terceiro ato com um duelo idêntico e com razões completamente alheias à trama do filme. Ainda assim, para os que desejam se divertir com esse velho esquema, Homem-Formiga pode ser traduzido como uma “sessão da tarde” com ótimos efeitos e boas piadas.

Para os mais exigentes, não adianta o quanto a Marvel tente dourar sua pílula de bilhões. Enquanto ela repetir sua velha fórmula cartunesca dúzias e dúzias de vezes, seus filmes serão medíocres dúzias e dúzias de vezes mais. Aqui não importa a escala. Tanto formigas quanto humanos no universo Marvel parecem nunca poder ser chamados de “fofinhos”, pois não há muitas emoções em jogo. Eu, por outro lado, ainda me lembro do meu amigo grilo. Espero que esteja bem nesse mundo verdadeiramente selvagem lá fora.

Wanderley Caloni, 2015-11-07. Homem-Formiga. Ant-Man (USA, 2015). Dirigido por Peyton Reed. Escrito por Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay, Paul Rudd, Edgar Wright, Joe Cornish, Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Com Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Bobby Cannavale, Anthony Mackie, Judy Greer, Abby Ryder Fortson, Michael Peña. IMDB.