House of Cards - Sexta Temporada (Season Finale).

Nov 16, 2018

A sexta e última temporada de House of Cards foi marcada por alterações drásticas em seu elenco, todas encabeçadas pela saída do seu protagonista, Francis Underwood, interpretado pelo insubstituível Kevin Spacey e que teve que ser substituído porque a patrulha dos bons costumes estava de olho em um caso ocorrido há mais de 30 anos onde Spacey avançou sexualmente para cima de um jovem de 14 anos (algo assim; leia os jornais se quiser saber mais). Apesar do ator também ser o produtor executivo da série, isso não impediu sua distribuidora por streaming, a Sjwflix, decidir reorganizar todo o meio de campo da produção da série antes de estrear esta que será sua última temporada, excluindo (apenas) nela todo e qualquer envolvimento do ator. Não se pode corrigir o passado quando ele está ainda dando lucro.

Isso quer dizer que nenhuma cena, foto ou áudio do protagonista da série inteira foi usado na produção de seu último capítulo, marcado por um número menor de episódios e reviravoltas e plots inacabados que comprovam que as medidas tomadas pela equipe criativa foram desastrosas em respeito à série, tornando o que era um exemplo televisivo a ser seguido em um show de horrores narrativo. Praticamente nada faz sentido do começo ao fim, e todos os conflitos e tramas soam descartáveis, jogadas ao vento e até cheiram conflitos de novela mexicana, onde completam uma cartela de bingo com os itens gravidez, filho adotivo e mortes repentinas e desajeitadas.

Tudo porque seus idealizadores transformaram sua esposa e agora presidente americana, Claire Underwood (Robin Wright), na protagonista da série, seguida cada vez mais de perto por Doug Stamper (Michael Kelly), que já comprovou sua eficácia em conduzir praticamente uma temporada inteira, mas que soa impotente diante de uma trupe de roteiristas que não conseguiu arrancar a participação do ator, que é a carta de fundação desse castelo, e sair ilesos com a qualidade da obra.

Participaram também do desastre, claro, o fato da personagem Claire ser mulher, o que gerou um escape ideológico para aberrações como a luta de uma mulher contra o velho patriarcado formado de homens brancos de terno e cabelos grisalhos encabeçados pelo seu vice, Mark Usher (um Campbell Scott perdido), e o novo corporativista-vilão, o decrépito Bill Shepherd (o ótimo Greg Kinnear). Há também a figura indispensável de Diane Laine, que faz a irmã maquiavélica de Shepherd, e que levanta um pouco a moral de Claire ao ter uma adversária à altura.

Enquanto coadjuvante e diretora (ela dirigiu alguns episódios) Robin Wright se sai muitíssimo bem como suporte classudo para um político baixinho com mania de grandeza. Porém, Wright obviamente não daria conta sozinha de uma temporada inteira, e isso é comprovado pelos péssimos momentos onde passa a conversar com o espectador. É ela e Stamper agora os responsáveis por quebrar a quarta parede, mas nenhum deles, principalmente Wright, possuem a malícia e o olhar sábio e repleto de camadas de Spacey, que conduzia sua própria história com vilania, mas a postura de um lorde das trevas.

Tentando reproduzir os mesmos passos em uma versão mais humana (onde a cena do passarinho é o reflexo da primeira cena de Spacey na série, onde executa um cachorro), a ideia central da sexta temporada seria (teoricamente) demonstrar como todos se tornam influenciáveis pela podridão do poder, e não há salvação nem para as mulheres (que obviamente são santas). Porém, a história é morosa, as reviravoltas são perdidas (em um dado momento uma personagem foge das tentativas de assassinato, se esconde, apenas para voltar e ser assassinada sem alterar nada na história) e a parte feminista não empolga.

Imagens e créditos no IMDB.
Wanderley Caloni, 2018-11-16. House of Cards - Sexta Temporada. House of Cards (USA, 2013). Dirigido por James Foley, Robin Wright, John David Coles, Carl Franklin, Tucker Gates, Tom Shankland, Alik Sakharov, Allen Coulter, David Fincher. Escrito por Beau Willimon, Andrew Davies, Michael Dobbs, Laura Eason, Bill Kennedy, Kate Barnow, Sam Forman, John Mankiewicz, Melissa James Gibson. Com Robin Wright (Claire Underwood), Michael Kelly (Doug Stamper), Diane Lane (Annette Shepherd), Campbell Scott (Mark Usher), Greg Kinnear (Bill Shepherd), Cody Fern (Duncan Shepherd), Derek Cecil (Seth Grayson). Bagunça, feminismo, política.