House of Cards - Segunda Temporada

Mar 13, 2016

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Já sabemos que Frank Underwood (Kevin Spacey) é capaz de literalmente tudo por mais poder. Se isso não fica claro no desfecho trágico do final da primeira temporada, com certeza o início da segunda não deixará a menor dúvida da mente doentia e obstinada do agora vice-presidente.

Criando uma metáfora extremamente eficiente entre uma batalha da guerra civil americana e a obsessão de Underwook pela presidência, os símbolos e os desfechos cada vez mais irônicos dos personagens secundários povoam o imaginário do espectador de maneira sutil, mas permanente. Já não é mais possível pensar claramente a respeito da estratégia do nosso anti-herói sem se deixar ofuscar pelo rastro de ressentimento, ódio e mágoas deixados pelo caminho. Porém, a ironia da série está justament em apontar, ainda que sutilmente, que todas aquelas pessoas envolvidas, em maior ou menor grau, estão tão obcecadas pelo jogo de poder quanto o personagem de Kevin Spacey. Se da primeira vez havia um herói por quem torcer (Peter Russo), agora ambos os lados do tabuleiro são culpados (ainda que possamos fazer uma curiosa comparação entre Russo e o desfecho trágico de outro personagem).

E se falo em guerra civil e tabuleiro no mesmo parágrafo é porque tudo se assemelha a um jogo de xadrez nessa história: fios narrativos aparentemente soltos entre os episódios criam uma trama extremamente coesa conforme as consequências começam a bater à porta, sendo exatamente uma das maiores virtudes dessa temporada conseguir manter a sutileza e ao mesmo tempo nos lembrar de personagens e fatos que aparecem apenas no início da história (ou em pequenos intervalos) para voltar nas horas finais. (E digo isso com “conhecimento de causa”, pois demorei meses para concluir a série, sem querer acabar tudo de uma vez.) Tudo isso, enfim, são pistas milimetricamente posicionadas por um trabalho conjunto de roteiro e direção absurdamente magnéticos. O trabalho de nove diretores e quinze roteiristas é mover as peças nesse tabuleiro desenhado com uma fotografia sóbria e duramente realista sobre os usos e desusos do poder na democracia.

A cereja do bolo obviamente são os dois episódios finais, quando o diretor James Foley volta com tudo e consegue tornar um acontecimento digno de uma catarse em um ritual fúnebre e previsto. Claro que “previsto” é que vamos descobrindo bem aos poucos, pois isso tiraria as surpresas e os riscos envolvidos. No entanto, quando Frank fala sobre “diminuir riscos” em uma última conversa com Tusk a respeito de seus métodos manipuladores das finanças conseguimos pescar que na verdade isso é o que o próprio Underwood consegue fazer na esfera política: com todas as peças já tendo sido colocadas em seus melhores lugares tempos atrás, basta executar o plano serenamente e observar o próximo passo a seguir. Depois de assistir a duas temporadas de House of Cards, só sendo bem mau-caráter para acreditar nas boas intenções dos governantes de um Estado. Qualquer um deles.

Wanderley Caloni, 2016-03-13. House of Cards - Segunda Temporada. House of Cards (USA, 2013). Dirigido por James Foley, John David Coles, Carl Franklin, Robin Wright, Allen Coulter, David Fincher, Charles McDougall, Joel Schumacher, John Dahl. Escrito por Andrew Davies, Michael Dobbs, Beau Willimon, Kate Barnow, Sam Forman, John Mankiewicz, Laura Eason, Rick Cleveland, Keith Huff. Com Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Nathan Darrow, Mahershala Ali, Justin Doescher, Michael Gill, Molly Parker, Derek Cecil. IMDB.