House of Cards - Terceira Temporada

Até a sua segunda temporada, House of Cards se beneficiava dos movimentos estratégicos de Frank Underwood (Kevin Spacey) para chegar ao topo e assim mover a história. Agora que ele ocupa o cargo máximo da nação mais poderosa do mundo sobra pouco espaço para subir, mas um longo caminho para descer. A recuperação de Doug Stamper (Michael Kelly) e sua genialidade resumida em pouquíssimos movimentos faz reflexo com a fraqueza de Underwood em um cargo público, como tão bem define as incessantes entrevistas com a imprensa e os ataques dos jornalistas, que parecem ter surgido de um panfleto comunista. Eles agora são poeticamente patrióticos. Faz até enganar por alguns momentos que há pessoas bem-intencionadas em torno desse lamaçal que ironicamente se chama Casa Branca.

Curioso como os criadores da série – notadamente Beau Willimon e seu principal diretor James Foley – depois de arrancarem nossa inocência confiam que vão nos fazer acreditar nesse “bem” etéreo de novo. Não vão. Não quando os melhores momentos da temporada são justamente os que concluem que esse negócio de ética e moral em política é uma grande bobagem. A dor de um presidente em transição e com um casamento desmoronando é bobagem maior ainda, pois não serve para que esse presidente com os dias contados evolua. Ou, mesmo que sirva de lição, de nada adianta se não ganhar as eleições. Qual a vantagem de se tornar um ser humano melhor sem o cargo mais poderoso do planeta? Ou seja: voltamos no bom e velho cinismo da série, talvez a única parte que reste do antes divertido Kevin Spacey, que anda compartilhando demais com seu público.

No entanto, enquanto essa rasa história – pelo menos para cerca de 12 horas de série – não se desenvolve, temos que aturar, assim como os seus desafetos, o projeto America Works sendo mencionado uma infinidade de vezes, e mais uma infinidade de situações bem menos ambiciosas do que estávamos acostumados a ver. O passeio de Claire (Robin Wright) pela ONU, por exemplo, é um exercício de futilidade – talvez porque a ONU assim o seja – que quase faz cair no sono não fosse as participações especiais de Petrov (Lars Mikkelsen), o sócia e caricatura de Vladimir Putin, presidente da Rússia. Petrov é mais do que uma caricatura, porém. Ele indica – se já não ficou óbvio – que o próprio Francis é uma caricatura, onde o mais óbvio é George Bush (pai) – e Claire na escola infantil são ecos do ataque terrorista. Porém, poderíamos estar falando de qualquer presidente americano que abusou do poder – praticamente todos que fizeram algo, e não marionetes do Raymond Tusk da vez.

De qualquer forma, fica claro que House of Cards não quer deixar a oportunidade de colocar “Francis presidente” em todos os clichês que os fãs imaginaram, o que não deixa de ser decepcionante exatamente porque se tratam de cartas marcadas – perdoem o trocadilho. Dessa forma, precisamos ver o presidente em negociações com o presidente russo, em uma crise no Oriente Médio, enfiando um projeto pessoal goela abaixo do Congresso, os preparativos para o próximo pior furacão de todos os tempos, etc, etc, etc. Tudo é muito burocrático, os personagens coadjuvantes não conseguem substituir Spacey (com exceção de um Michael Kelly enigmático) e o próprio Spacey está ocupado demais dirigindo um país que quer para si. Seu maior inimigo se torna ele mesmo, e isso não chega nem perto da complexidade dos roteiros anteriores.

Mesmo com toda essa preguiça intelectual e falta de ambição que daria nos nervos da própria família Underwood, as falas de Spacey continuam afiadas e certeiras (às vezes em mais de um alvo). A sequência do debate presidencial – incluindo os dois episódios antes dele de fato começar – tem seus bons momentos, ainda que artificial em seu todo. Porém, esse ano o prêmio vai mesmo para Michael Kelly e a direção crua de James Foley em seu último episódio que com a ajuda do roteiro de Beau Willimon criam uma rima que quase faz apagar todas aquelas horas monótonas em companhia do presidente norte-americano. A única boa notícia foi saber que Doug Stamper está de volta no jogo.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-03-13 imdb