House of Cards - Quarta Temporada

A temporada 4 de House of Cards é o que esperaria ver de um Francis Underwood presidente, algo que foi adiado pela pálida temporada anterior, que ainda que tenha seus momentos gloriosos, falha em sua premissa principal: causar tensão no dia-a-dia presidencial. E essa tensão está amplamente disponível agora, se espalhando por todas as vias políticas. Obviamente ela afeta sempre indiretamente Frank, mas a série se inicia com Lucas Goodwin na prisão (Sebastian Arcelus), que assim como Doug Stamper (Michael Kelly) terá uma curva trágica que desencadeará a trama principal.

Porém, dessa vez na ribalta (e essa palavra é citada muitas e muitas vezes) também se apresenta uma nova Claire Underwood, decidida a não continuar sob a luz mais fraca. Através de uma série de eventos que brincam razoavelmente bem com todo o esquema de jogo de influências e mudanças de estratégia no meio do vôo, a primeira metade da temporada desencadeia eficientemente para um dos momentos e um dos episódios mais fortes dramaticamente na trama, quando um evento arrebatador pode ser confundido como conspiração, medida desesperada ou simplesmente uma coincidência tão incrível que ela se torna espontânea, orgânica e com certeza um dos melhores momentos no roteiro de toda a série, unindo todas as pontas de seus personagens de uma vez.

E é justamente esse acontecimento que altera de uma vez a relação entre Claire e Frank, ou pelo menos a torna mais clara para nós, espectadores. Decisões importantes e estratégias são reveladas antes de acontecerem, pois agora há algo maior e mais irracional para se lidar: a opinião pública. E se há algo inverossímil na série, é considerar que essa opinião seja tão embasada e sensível a pequenos escândalos. Bom, talvez um pouco mais que aqui no Brasil.

No entanto, o que a torna infinitamente mais crível é assumir que todos seus personagens são corruptos, em menor ou maior grau, pois todos estão dispostos a realizar ações que irão lhes garantir uma ou outra vantagem. Por isso até personagens menores como Seth Grayson se revelam apenas como mais do mesmo, e ironicamente é por isso que considero Doug Stamper como o personagem mais íntegro de toda a série.

Até porque, convenhamos, integridade não combina com realidade. Heather Dunbar (Elizabeth Marvel), apesar de flertar com a possibilidade de ser íntegra até os ossos – e potencialmente ser a queridinha da esquerda, alguém por quem torcer – vira aos poucos uma figura medíocre que nada consegue por sua falta de flexibilidade moral. E é isso o que torna tão fascinante a figura de Will Conway (Joel Kinnaman), um novo rival que ataca de queridinhos da América e que pertence ao mesmo jogo político que aqui nos trouxe Fernando Collor. Jovem e disposto a usar as mídias sociais ostensivamente ao seu favor, chegando ao cúmulo de embolsar o criador de um saite de buscas famoso – ainda que não seja uma acusação, uma espetada interessante no poder de empresas como Google. Em contrapartida, isso traz à tona questões como o poder da NSA, que não possui um saite de buscas, mas algo muito mais poderoso: rastrear todos os americanos na internet e nas linhas tenefônicas.

Ganhando pontos também por nos trazer um roteiro que não se priva de criar caminhos falsos, expectativas invertidas e tramas desconexas que de repente se tornam relevantes, House of Cards S04 é tudo que sua primeira temporada nos trouxe, e isso já é muita coisa. Infelizmente, ainda se parece com mais do mesmo, embora isso já seja por si só fascinante de acompanhar.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-03-13 imdb