Idiocracia

Desde o começo Idiocracia estabelece o seu tom de comédia explicando uma teoria muito louca — mas com um sentido simplesmente hilário — de por que o futuro da humanidade é se tornar cada vez mais idiota. Melhor: acompanha um experimento do exército para “estocagem de humanos” em caixões monitorado por um militar que consegue uma prostituta voluntária negociando diretamente com o seu cafetão. Essa parte, ambientada nos tempos atuais, já preocupa pela linha tênue com que o diretor Mike Judge (Como Enlouquecer seu Chefe) separa um discurso feito de palavras formais de ações idiotas executadas pela mesma pessoa que profere o discurso.

Essa mesma dualidade do linguajar ele irá resgatar quando Joe (Luke Wilson), o outro voluntário do experimento, viaja 500 anos no futuro, onde o “mundo” é composto e liderado por idiotas completos, incapazes de estabelecer qualquer tipo de comunicação melhor do que grunhidos, risadas, barulhos estranhos e sinalizações monossilábicas do que estão “sentindo”. Joe é uma pessoa de inteligência média que não se importa de fazer qualquer coisa na vida. Consequentemente é a melhor pessoa que poderia viajar para este destino utópico, pois começa a enxergar naquelas pessoas e suas vidas sem sentido o seu próprio destino (ou castigo) por se comportar como alguém aquém da sua capacidade de raciocínio.

Mais assustador do que se estivesse exagerando, o futuro utópico do filme também apresenta uma outra linha tênue entre a população formada inteiramente por idiotas e pela comparação que Mike Judge faz com boa parte das pessoas que hoje vivem entre nós. As próprias marcas e lojas ainda existem, embora tivessem sido cada vez mais descaracterizadas para atender cada vez melhor o seu único público-alvo.

A melhor ficção é a que consegue te distanciar da realidade para te fazer pensar exatamente nela. Nesse sentido, Idiocracia, infelizmente, é um excelente espécime.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-06-07 imdb