Incêndios

Wanderley Caloni, September 28, 2011

Os melhores filmes, ou os que merecem revisitas mesmo depois de conhecermos o seu desfecho, geralmente são aqueles que permitem múltiplas interpretações e que conseguem impressionar pela sua engenhosa criação. Ou seja, ao mesmo tempo emocionam e possuem um prazer intelectual implícito em sua estrutura. Esse é sem dúvida o caso de Incêndios, que não apenas apresenta uma história arrebatadora do começo ao fim em seu nível emocional (personagens) como também permite análises em camadas mais racionais, sem com isso diminuir o impacto de sua história.

Dirigido e escrito por Denis Villeneuve, que adaptou uma peça de Wajdi Mouawad, o filme começa com a leitura do testamento de Nawal Marwan, recém-falecida e mãe de um casal de gêmeos, Jeanne e Simon. O texto contém instruções específicas para a entrega de duas cartas: uma para um possível terceiro irmão e a outra para o pai desaparecido. Se, para Simon, o testamento é um disparate da mãe, que estava mentalmente debilitada, e por isso deve ser ignorado, para Jeanne é uma tarefa necessária, tanto como último pedido, como para honrar a morte da mãe, que apenas poderá ser enterrada de forma apropriada caso as instruções do testamento sejam seguidas à risca.

O que se passa após essa intrigante abertura é uma busca que ao mesmo tempo resgata não só o passado de Nawal Marwan, como a história do próprio povo palestino, que sofreu os injúrias de uma guerra que o dividiu e o divide até hoje (e a família despedaçada é apenas uma das metáforas do longa). Contando quase sempre com imagens, o filme opta pela expressividade da câmera, que oscila entre a determinação de Jeanne e os momentos de repouso e reflexão sobre seus atos.

Ao mesmo tempo, utilizando de maneira incrivelmente fluida o paralelo da peregrinação da filha com a da sua mãe, que da mesma forma buscou o filho separado após o parto, há uma “química” entre ambas que a montagem de Monique Dartonne conseguiu expressar maravilhosamente bem. Quase sempre as transições no tempo ocorrem sem aviso, o que ao mesmo tempo que ajuda a passar a impressão de desorientação, revela as semelhanças entre Jeanne e Nawal e traça aos poucos a personalidade das duas, filhas dos mesmos sentimentos e convicções (inclusive os estudos é artifício utilizado para juntá-las na narrativa).

Já ciente das interpretações além da trama, as sequências muitas vezes se iniciam em duplas: um detalhe do local e uma panorâmica em seguida. Essa lógica metafórica que liga personagem a lugar é inteligentemente invertida também para representar a própria terra violada e a mãe, como o final da sequência do ônibus ou quando ela chega às ruínas do orfanato, criando um paralelo indistinguível entre as duas (terra e mãe). Aliás, não duvidaria nada que existisse algo de metafórico também no fato de termos aí dois irmãos gêmeos, sabendo das origens da Palestina em Norte e Sul (em que o Sul é a parte oprimida, terra-natal de Nawal).

Mas divago.

Por falar na sequência do ônibus, ela é sublime em diversos aspectos, e é difícil não prender a respiração em vários momentos. Mérito disso é a câmera que trepida e repousa de acordo com a percepção da personagem, e acompanhar esse trabalho técnico durante a narrativa certamente é uma lição valiosa sobre Cinema, pois ao mesmo tempo que revela um diretor que sabe o que está fazendo por trás das câmeras, ainda ensina como prender a atenção por vários minutos a fio, às vezes sem quase nenhuma ação.

E não é só a direção que possui virtudes a salientar. O roteiro cresce durante a narrativa, entregando aos poucos o resultado de um jogo intrincado de relações, que irão se ligar de maneira satisfatória e engrandecer cada vez mais a história, que nunca se perde apesar da complexa montagem. A razão disso acontecer é o controle consciente da câmera, que aponta os detalhes do filme inteiro, muitas vezes de forma inconsciente para o espectador. Prova disso é que seu último ato ela consegue nos remeter a diversos momentos do filme que poderiam muito bem passar despercebidos se não fossem os detalhes focados em determinados momentos, mesmo que estes fizessem parte de uma cena de dois segundos. Por estar lá, e por confiar na percepção de seu espectador, é um projeto que merece uma salva de palmas de pé por sua coesão e economia linguística.

Ao final, o olhar catatônico da mâe, parada em frente à piscina, é exatamente o olhar que ficaremos no desfecho da história, criando uma sensação de empatia completa com o impacto que ela sofreu. Ao mesmo tempo, porém, existe algo maior, talvez um prazer estético pelo desfecho da trama, que retorna de uma longa jornada para nos entregar, de maneira magistral, uma conclusão intelectualmente arrebatadora.

Imagens e créditos no IMDB.
Incêndios ● Incêndios. Incendies (Canada, 2010). Dirigido por Denis Villeneuve. Escrito por Valérie Beaugrand-Champagne, Wajdi Mouawad, Denis Villeneuve. Com Mustafa Kamel, Hussein Sami, Rémy Girard, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Dominique Briand, Lubna Azabal, Frédéric Paquet, Hamed Najem. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-09-28. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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