Indiana Jones e a Última Cruzada

Nov 3, 2016

Imagens

Há filmes que parecem diferentes dependendo do período da vida que você os assiste. A Última Cruzada, última aventura de Indiana Jones nos anos 80, para mim foi quando criança uma aventura sólida, divertida, emocionante e cujos valores cristãos eu compactuava na época. Hoje, mais velho, e alguns milhares de filmes depois, continuo vendo como quase tudo isso (tirando a parte cristã), mas com um sentimento que foi adicionado com o passar dos anos: o saudosismo, ou até a saudade, da época em que ação de verdade envolvia o herói ficar pendurado do lado de fora de um tanque e comer poeira aguardando sua morte imediata.

Nesta aventura o roteirista Jeffrey Boam nos remete de volta ao primeiro filme, com nazista em busca de um artefato religioso supostamente com poderes mágicos, mas em vez dos judeus e a arca da aliança, agora estamos falando dos cristãos, onde um pequeno ramo da história remete ao rei Artur e suas lendas. Porém, a história também volta ainda mais no tempo, narrando (supostamente) a primeira aventura de um Indy ainda garoto, e em uma perseguição em cima de um trem do zoológico consegue inserir diversos elementos de seu universo, como o medo de cobras, o chicote e até o jeito bonachão de se sentir vitorioso. Ah, e claro, o chapéu.

É nesse momento que ouvimos seu pai, em seu escritório, ordenando que o garoto que entra excitado conte até cinco em grego. Mas até lá ele já perdeu o artefato que tinha roubado de exploradores para colocar no museu. Esse timing entre pai e filho se repetirá durante todo o filme, quando o filme avança para os tempos atuais e a história de ambos se cruzam quando seu pai desaparece durante as pesquisas que avançam em busca do cálice sagrado, a taça usada por Jesus em sua última ceia, e que de acordo com a lenda teria a propriedade de dar vida eterna a quem o usasse.

Seu pai é interpretado por Sean Connery em um estado de espírito que consegue trazer um alívio cômico compatível com o garoto interpretado por Jonathan Ke Quan em O Templo da Perdição, mas de uma maneira mais natural e misturada com a emoção de vermos pai e filho contracenando, mesmo que o pai tenha sido apresentado apenas em trinta segundos. Isso porque Connery foge de sua zona de conforto desde o começo. Ele está disposto a viver essa persona de um velhinho inteligente, distraído e ainda assim, espirituoso. O roteiro de Boam também é responsável por criar ótimos momentos com a dupla. A primeira cena entre eles com Jones adulto já se torna clássica. O pai quebra um vaso Ming na cabeça do filho pensando que era um nazista; o pai lamenta que seja um Ming, no que o filho responde que está tudo bem (com a cabeça dele), no que o pai respira aliviado; mas não pelo filho: por descobrir que o vaso é uma mera falsificação.

Este filme não conseguiria ficar ao nível dos dois primeiros se não fosse pela química indispensável entre Connery e Harrison Ford, o que chacoalha a suposta mesmice que seria mais uma aventura “a la James Bond” de uma maneira que consegue manter o velho formato com mocinha e bandido e ampliá-lo pela ótima de mais uma geração em cena.

Mais uma vez a fotografia usada por Douglas Slocombe é épica, com um amarelo que favorece as paisagens desérticas de onde está a aventura, além de usar uma certa iconografia pálida e triste dos nazistas – incluindo o próprio Hitler – durante uma queima de livros. Além disso, a dupla de editores formada por George Lucas e Michael Kahn é imbatível nas cenas de ação, realizando um ritmo que é lento o suficiente para vermos as reações de Jones e seu pai e ágil o suficiente para que continue sendo um filme de ação.

Alguns efeitos parecem passados, como o rápido envelhecimento de um personagem, mesmo que ainda impressione. Eu me lembro, quando criança, como essa cena me impactava muito, pelo medo de escolher a taça errada. Hoje ela me impacta por outros motivos. Entre eles a irracionalidade humana, que ambiciona o que não entende, e nessa busca estúpida por mais poder acaba sucumbindo por um desmoronamento de sua própria ignorância. A sensação é parecida, no entanto, quando Jones estala o seu chicote e o usa como cipó. Inesquecível e imutável.

Wanderley Caloni, 2016-11-03. Indiana Jones e a Última Cruzada. Indiana Jones and the Last Crusade (USA, 1989). Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Jeffrey Boam, George Lucas, Menno Meyjes, Philip Kaufman. Com Harrison Ford (Indiana Jones), Sean Connery (Professor Henry Jones), Denholm Elliott (Marcus Brody), Alison Doody (Elsa), John Rhys-Davies (Sallah), Julian Glover (Walter Donovan), River Phoenix (Young Indy), Michael Byrne (Vogel), Kevork Malikyan (Kazim). IMDB.