Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal não é apenas um filme ruim. Ele vai muito além do que simplesmente duas horas desperdiçadas. Ele trai uma trilogia bem acabada e desencanta um universo intocável. E vai ainda além. Ele subverte a beleza da aventura realista de tempos pré-digitais em prol de um fundo verde que dá lugar a uma pavorosa fotografia que empalidece até o conceito de filme de ação contemporâneo. Ele explora personagens memoráveis em prol das cenas fáceis, do video-game de segunda categoria, de quebra-cabeças para crianças de cinco anos. Ele fere o coração de toda uma geração que sonhava com arqueologia exploratória. Ele chega ao cúmulo de tornar Indiana Jones um desistente, um perdedor, um conformista. A sombra do que um dia foi um Homem.

E não é questão de idade. Harrison Ford poderia muito bem ser substituído por alguém com um estilo mais atual, ou ele próprio poderia representar a figura amável de Sean Connery no terceiro filme. Já vimos dezenas de filmes de ação essa década protagonizados por atores de ação dos anos 80. Stallone desenterrou a todos! Estão todos vivos, atores e diretores. Menos Spielberg. Menos George Lucas. Eles resolveram ficar sentados no canto da sala, brincando com PSP e imaginando um novo universo para o herói. Um universo onde ninguém se machuca, onde o importante é a forma em vez do conteúdo, e a forma é como uma dança com música ruim. Uma trilha sonora de John Williams que lembra os bailes de debutantes na época em que minha mãe era uma debutante.

Essa história se passa alguns anos depois da última, na década de 50, horrorosamente emulada por uma direção de arte que não consegue mexer nem com computador nem com cenografia de papelão. Não viram sequer uma cena de De Volta para o Futuro. Os vilões deixaram de ser os nazista para dar lugar aos russos, em uma época onde havia teorias de conspiração sobre como os comunistas comedores de criancinhas iriam dominar o mundo se infiltrando na América. Uma dessas vilãs é a queridinha de Stalin, Irina Spalko, uma Cate Blanchett que parece tentar se divertir, mas aparentemente ela percebeu a furada que se meteu.

O elenco inteiro está disperso. Spielberg deve ter filmado com seus atores sempre depois de um almoço com feijoada regado a capirinha em algum boteco do lado da floresta amazônica. Ops, me esqueci: ninguém foi para a Amazônia exceto alguns drones com go pro e diretores de segunda linha para filmar sem elenco. Tudo parece ter sido recortado mal e porcamente e colado em um fundo verde que não parece convencer nenhum dos atores, mas de certa forma parece se encaixar na diversão do diretor.

A história combina Tomb Raider I com algum livro de mistérios para crianças da quinta-série. Os diálogos fazem questão de dizer tudo com todas as palavras, e ainda redizer de forma invertida. “Então o tesouro para eles era o conhecimento.”, diz um “Dr.” Jones encantado. Logo em seguida ele conclui: “O conhecimento para eles era o tesouro.”. Muito bem deduzido, “Dr.” Jones! Case-se comigo!

Mas estava criticando o elenco inteiro sem motivos. Shia LaBeouf está confortável no papel de mocinho ocasional afetado. Todos seus Transformers o treinaram para isso. Ele apenas não imaginava desempenhar este papel em um Indiana Jones, ainda mais com um Spielberg na direção. Eu me pergunto quem, no meio dessa produção, fazia alguma ideia do que estava sendo feito. Eu me pergunto quem, no meio do cinema, fazia alguma ideia de qual filme estava vendo.

Este é um “Tudo Por Uma Esmeralda” genérico (como se o original já não fosse) que por obra do destino utilizou personagens famosos (até se passa na Amazônia, quem diria). As cenas de ação não convencem – talvez porque atrás delas há um fundo verde – mas elas combinam com as tribos indígenas que vemos no caminho, tão fantasiosas quanto. Há truques de coreografia entre eles, como sair de buracos escuros, e se disfarçar de caveiras, ou olhos atrás de caveiras. A caveira parece ter um significado peculiar para o filme. Ela está no título, nas mãos de John Hurt (aliás, o que ele está fazendo aqui?), nos desenhos das paredes de milhares de anos atrás coloridas com “ferro, zinco, cobre”.

Esqueça a história da geladeira sobreviver a uma bomba atômica. Esse é o menor dos detalhes de um filme que não quer se levar a sério desde o começo, é itinerante e não tem ideia de onde quer chegar (exceto os bolsos de Spielberg e Lucas). É triste ver dois cineastas de idade, com currículos invejáveis, trair seu próprio histórico por uma aventura inconsequente, que carece de maturidade desde o roteiro, mas que acompanha o despreparo até a pós-produção. Um furo colossal na obra dessa excelente dupla. South Park está certo: Indy foi covardemente estuprado.

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-11-04 imdb