Indomável Sonhadora

Desde o começo Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) — a Indomável Sonhadora do título nacional — carrega a história nas costas. O que não é pouca coisa se considerarmos que ela mal aparenta dez anos de idade. Acompanhamos sua jornada precoce rumo à maturidade junto de uma inspirada orquestra que toca cada passagem da história como se fosse um momento único e solene rumo a sua emancipação. A fotografia árida, ajudada pelos grãos difusos e o foco oscilante, e a sempre tremendo câmera parecem sugerir um mundo instável prestes a acabar em um deserto. Pudera. Se até para os adultos a vida não é fácil conseguimos imaginar os esforços da pequena. Sua experiência de vida é muito diferente da vida na cidade, e o que parece cruel ou duro demais a uma criança acaba soando apenas como mais um rito de iniciação.

O significado dessas passagens, no entanto, nunca fica claro o suficiente e sequer é aberto a muitas interpretações. Obviamente enxergamos aquele mundo através dos olhos dessa menina, que por sua vez herdou o seu conhecimento do pai (Dwight Henry), um teimoso habitante junto com uns gatos pingados em uma área de risco de enchentes. A comunicação da menina com os animais e sua interpretação do mundo adaptada dos ensinamentos da professora do vilarejo criam uma expectativa épica aos acontecimentos. A vinda de um perigoso animal pré-histórico poderia representar o perigo que cada um de nós sente no mundo. Mais uma vez, é impossível de saber. Assim como ele, a realidade está envolta em uma impenetrável névoa.

Com o passar da história o sentido vai perdendo importância. O pouco que sabemos parece conseguir guiar de alguma forma a história. Mesmo assim, a conclusão da jornada épica da menininha merecia um pouco mais de polimento. Já a interpretação de Quvenzhané Wallis é enigmática pela sua pouca idade. Pode ter sido a escolha exata para o papel ou em breve a veremos criar outro personagem marcante. Assim como no filme, só o tempo dirá o mundo que existe dentro dela.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-03-05 imdb