Infiltrados Na Klan

Oct 30, 2018

Imagens

Spike Lee retorna aqui com a temática do racismo de “Faça a Coisa Certa” de várias décadas atrás. E coincidentemente seu astro apareceu em outro filme político do diretor, Malcolm X (embora completamente desconhecido, “como Estudante na Sala de Harlem”). Aqui junto com Adam Drive eles realizam os mesmos passos descritos no livro autobiográfico de Ron Stallworth, primeiro policial e detetive negro do departamento de polícia de Colorado Springs e que se infiltrou em um movimento da Ku Klux Klan no final dos anos 70. Essa história possui requintes surreais e parece extraordinária demais para ser séria.

Porém, o mais extraordinário é que ela é real! E a genialidade do filme começa em usar Spike Lee (que também participou da produção) para arquitetar essa história. Aliando um humor escrachado ao mesmo tempo que vai conquistando a empatia do público pelo competente mas distraído Ron Stallworth vivido por John David Washington (você pode ver ele também em O Livro de Eli). Tanto ele quanto Adam Drive são auxiliados por um elenco extremamente afiado em viver brancos preconceituosos, alienados e um tanto abobados, seja a força policial ou o pessoal da KKK. Adam Drive aparece com igual peso no pôster do filme, mas é um embuste, ele possui uma participação menor ou está em uma atuação mais apagada; não é de fato um personagem para esse ator.

A direção dinâmica de Lee mantém o controle absoluto da narrativa. Note os inúmeros cortes rápidos entre as ligações telefônicas entre Ron e o pessoal da Klan. Ou melhor: note os momentos em que o filme paraleliza dois grupos ideológicos que realizam uma espécie de rima temática aqui: de um lado os negros mais radicais influenciados pelo movimento dos panteras negras; do outro os malucos da classe média norte-americana protestante que culpam negros, judeus e outros imigrantes pela degradação moral de sua grande nação.

Se bem que, se tornando maior que a arte, a vida real não os desmente completamente. Quando um dos líderes profere palavras de ódio direcionadas aos judeus e sua conspiração que controla tudo e todos ele não está totalmente errado, seja no passado ou no presente. Aliás, deixe-me reformular a frase: ele está completamente certo! Hoje em dia, pós crise de 2008, se tornou lugar-comum criticar os 1% mais ricos da sociedade, os detentores do poder em Wall Street, geralmente associados a uma suposta hegemonia branca. Essa análise está correta, mas incompleta. Na verdade os 1% que estão no topo da cadeira financeira são na esmagadora maioria não apenas brancos, mas todos judeus. Todos. E aí? Uma teoria é mentirosa só porque está sendo proferida por um lunático racista, mesmo que coberta por fatos?

Por outro lado, “Infiltrados Na Klan” parece fazer o serviço histórico bem feito, ligando uma cena de “O Vento Levou” a um vídeo de ódio (real) dramatizado por Alec Baldwin e passando à história do filme (que é um misto de ficção e realidade). Ao final Spike Lee junta as pontas novamente usando eventos extremamente recentes onde houve atentados violentos entre pessoas que ainda defendem a segregação entre negros e brancos. E Lee não está tão equivocado quando coloca no mesmo patamar qualquer movimento supremacista (negro ou branco). Ele simplesmente segue o princípio moral mais geralmente aceito: membros da KKK, apesar de menos organizados, galgam perigosamente níveis de influência política mais facilmente que movimentos negros. E costumam ser mais violentos na prática.

Dessa forma é questionável se o humor do filme não extrapola demais, minimizando no processo a seriedade das questões políticas que ele coloca. Note que há o mesmo tipo de humor em No Calor da Noite, embora com um tom dramático acima, graças à performance espetacularmente coesa de Sidney Poitier, que aí faz um negro de respeito. Ron Stallworth ganha respeito na corporação; respeito conquistado com esforço e inteligência. Mas é o mesmo respeito que o espectador enxerga por trás de todas as piadas?

Agora, analisando o que Lee está tentando fazer com esse estilo mais despojado encontramos a melhor pista: blaxploitation. Ou seja, os filmes dos anos 70 que discutiam com uma estética canastrona a relação entre as raças trazendo protagonistas negros, e geralmente filmes policiais, como o sub-gênero “mulher na cadeia”. Tanto Stallworth quanto seu interesse amoroso, feita pela irreconhecível Laura Harrier (a namoradinha do último Homem-Aranha protagonizado por Tom Holland), participam de algumas tomadas e trilhas sonoras que acusam essa relação. Boa parte do público pode perder a referência, e é por isso que Lee insere no meio do filme as capas de filmes famosos do gênero, algo que certamente ajuda.

Seja pelo senso político ou pelo humor, “Infiltrados na Klan” possui aquele ajuste fino que apenas grandes diretores conseguem realizar como se não fosse nada. Spike Lee é um deles. E ele está tinindo. Resta um roteiro com menos coincidências e um pouco mais de conhecimento histórico/político/social (ou menos engajamento ideológico) para ele realizar sua próxima obra-prima.

Wanderley Caloni, 2018-10-30. BlacKkKlansman. EUA, 2018. Escrito por Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee baseados no livro de Ron Stallworth. Dirigido por Spike Lee. Com John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier. IMDB.