Intocáveis

2016/07/28

Uma das falas mais emocionantes do novo longa de Olivier Nakache e Eric Toledano é quando Philippe (François Cluzet) – um tetraplégico ricaço que contratou recentemente Driss (Omar Sy), um rapaz pobre e sem experiência como seu enfermeiro – é questionado por seu amigo se não acharia perigoso estar sempre ao lado de uma pessoa que notadamente não demonstra qualquer compaixão pelo ser humano. Contrariando nossas expectativas, Philippe confessa que é exatamente isso que ele precisa no momento: de alguém que não tenha compaixão de si e de sua condição de dependente da ajuda dos outros para uma vida toda.

Esse é apenas um exemplo da capacidade aparentemente sem limites para a fluidez do roteiro de Intocáveis, que se aproveita de todas as situações envolvendo a dupla de protagonistas para colocar diálogos inspiradíssimos e que tornam a improvável relação entre os dois como a chance para um exercício de humanidade. E que chance! Omar Sy está extremamente à vontade no papel de Driss, um imigrante pobre que foi adotado por uma família que não mais o deseja. Talvez Philippe não saiba, mas essa condição em que Driss se encontra talvez seja o que torna o elo entre esses dos renegados mais natural e, por isso mesmo, penetrante em nosso consciente.

Não importa as piadas potencialmente ofensivas que Driss dispara contra Philippe, já que sabemos que ele não o faz por mal e, se o fizesse, aí sim o filme seria um desastre. Porém, é exatamente pela ingenuidade ou vivência de Driss que entendemos sua posição diante dos caprichos de uma vida suntuosa mas trágica. Da mesma forma, o bom humor constante de François Cluzet nos traz um Philippe que já se acostumou ao seu estado de dependência, não sendo este o maior problema. Sua curva de aprendizado será em outro setor, bem mais delicado e igualmente satisfatório na narrativa.

Curiosamente é a tentativa de tornar Driss como o salvador da pátria que mais prejudica o longa. Dessa forma, em nada acrescenta o vermos resolver os problemas da filha de Philippe ou sugerir que a governanta tenha um relacionamento com o jardineiro. Driss não consegue resolver os problemas da própria família, mas se mete na vida dos outros e se sai muito melhor. De qualquer forma, essa tentativa de humanizar um ser humano muito mais completo sem seu lado bondoso seria algo realmente mais digno de se ver.

No entanto, sob as mesmas condições de temperatura e pressão, Intocáveis como argumento poderia ser um desastre completo em outras mãos. Porém, com o roteiro, direção e atuação das três duplas de profissionais se transforma em um exercício hábil e convincente dos desejos humanos. Não torna tudo simples, mas difícil no ponto certo. Dificilmente uma outra produção conseguirá dar o tom exato às dificuldades que essas pessoas têm para sobreviver (e isso porque só estamos falando das ricas).

★★★★☆ Intouchables. France, 2011. Direction: Olivier Nakache. Eric Toledano. Script: Olivier Nakache. Eric Toledano. Cast: François Cluzet. Omar Sy. Anne Le Ny. Audrey Fleurot. Joséphine de Meaux. Clotilde Mollet. Alba Gaïa Kraghede Bellugi. Cyril Mendy. Salimata Kamate. Edition: Dorian Rigal-Ansous. Cinematography: Mathieu Vadepied. Soundtrack: Ludovico Einaudi. Runtime: 112. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Biography. Category: movies

Share on: Facebook | Twitter | Google