Invocação do Mal

Diferente do que poderíamos imaginar, a direção precisa, acelerada e gore de James Wan em Jogos Mortais não apresenta comparações neste Invocação do Mal, que se insere no gênero de horror realizando pequenas homenagens de obras icônicas enquanto ensaia um estilo visual mais agradável ao público de hoje.

No entanto, felizmente, o clima de filme de terror de décadas passadas permanece, auxiliada pela história que se passa nos anos 70 e acompanha um casal de especialistas em eventos sobrenaturais (Patrick Wilson e Vera Farmiga) e uma família com diversos filhos que se muda para uma memorável casa no campo onde acontecimentos tenebrosos vão aos poucos tomando conta do seu dia-a-dia. A falta da tecnologia e do cinismo dos dias atuais, aliada a uma religiosidade ainda alta na sociedade, culmina na criação de uma atmosfera já conhecida no Cinema e que fez tanto sucesso em obras clássicas (O Exorcista, Os Pássaros). Pela nossa memória afetiva arriscaria dizer que o resultado de Invocação do Mal acaba se tornando ainda mais assustador.

Utilizando pequenos acontecimentos noturnos que poderiam ser explicados de maneira lógica e racional na vida real o filme não tem pressa em nos apresentar o perigo sobrenatural, pois faz com que aos poucos sejamos fisgados pela possibilidade de forças de outro mundo estarem exercendo uma influência demoníaca por toda a casa. Nesse sentido, a cena da brincadeira de esconde-esconde com a mãe é vital para estabelecer uma cumplicidade mórbida com o espectador, pois vemos o que aquela família ainda não percebeu e passamos a estar cientes de algo que os pais daquelas crianças irão descobrir às duras penas.

A escolha de atores desconhecidos do grande publico para todos os papéis da família, aliás, demonstra ser um grande trunfo, pois aqueles rostos desconhecidos ampliam o realismo dos acontecimentos narrados. Não por coincidência, os astros da produção são justamente o casal de especialistas, que além de estarem lá para nos apresentar didaticamente os seus métodos de busca do sobrenatural, eles mesmos precisam passar por uma provação, e a inteligência do filme em entender que profissões como aquela podem ser desgastantes demais para quem os exerce é um ponto alto.

Mas voltemos à casa. A infinidade de objetos em cena nos faz perder o rumo (como bem observou Wan ao percorrer a casa da frente aos fundos em uma sequência que rodopia em torno de diferentes obstáculos). Sem saber para onde olhar, tudo parece igualmente importante, gerando um caos visual muito maior. Aliado a isso, o som muitas vezes parte de fora do quadro (“clap, clap”), gerando a sensação que, apesar de termos muito o que olhar, o que importa de fato nos escapa à visão (exatamente o que a família sente). E se a música de Joseph Bishara parece exagerar em alguns momentos, não se pode negar a felicidade ao ouvir um tom de respiro e alívio após algum evento particularmente tenso.

E por falar em atmosfera, a fotografia de John R. Leonetti é precisa e significativa ao colocar cores desbotadas em torno das roupas da família todo o tempo, mas preferir deixar cores mais marcantes (vermelho, amarelo) nos objetos que compõem a casa. A ambientação é tão poderosa que bastam alguns segundos olhando para o porão iluminado sem nada acontecendo, por exemplo, para que o medo se instaure sorrateiramente em nossas mentes, fazendo o papel psicanalítico de subconsciente como ninguém. O uso das sombras está longe de exercer fascínio, mas se sai muitíssimo bem em determinada cena onde o detrás da porta está em questão.

Enfim, um trabalho de atmosfera que compensa demais trabalhos menores do gênero. O fato de aos poucos entendermos e nos importarmos com aquelas pessoas (tanto a família quanto os especialistas) é que torna seus momentos finais mais angustiantes e desagradáveis (no bom sentido). A tensão de termos que encarar aquelas pessoas sofrendo no máximo de suas capacidades é uma catarse muitas vezes mais poderosa do que qualquer outro show de pirotecnia nos efeitos visuais seria. O melhor efeito visual sempre é o que se desenvolve em parte dentro da mente do espectador.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-09-26 imdb