Jack e a Mecânica do Coração

Esta animação é a conquista emo e gótica ao mesmo tempo. Feito com um apuro artístico incomum para produções de baixo orçamento, a história possui um clima pessimista, romântico e inalcançável que crianças não irão gostar, e muito menos adultos não muito afeitos a água com açúcar.

Regado com muitas músicas e cenas estilo videoclipe, o filme conta a história de um menino que tem um relógio no lugar do coração, mas parece ter mais coração que todos. Ele percebe a passagem do tempo e a realidade em sua volta pelo filtro da emoção, idealizando-a com outros seres igualmente estranhos.

A fotografia é triste, com muito branco e cinza, lembrando contos de terror de Edgar Alan Poe, e podemos dizer, referenciando e homenageando, já que a figura do corvo é recorrente na narrativa. O vilão canta um rap que combina melancolia, pessimismo e ódio. A mocinha é literalmente uma flor, e quando ameaçada surgem espinhos em volta de seus ombros. Tudo é muito visual nesse filme, o que o coloca em um patamar superior a de outros que usam apenas gags visuais sem um significado mais “profundo”.

E se formos acusar o filme de algo, é justamente essa ambição por significado, frustrada muitas vezes durante o filme, quando percebemos que tudo que acontece é uma busca incessante pelo impossível. Não há como um filme gótico ter final feliz, assim como na vida sob a ótica do pessimista emocional, o romântico às avessas.

O apuro estético muitas vezes impressiona, mas não tanto quanto a criatividade na montagem de cada cena. Quando Jack, o personagem principal, se apaixona, o vemos junto de sua amada em uma sequência que envolve perda da gravidade e transições tão elegantes entre quadros que fica difícil não se impressionar por tanta elegância em um número musical.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-17 imdb