Jackie Brown

Para os fãs de Tarantino, Jackie Brown não é nenhuma novidade, exceto que aqui o roteiro é adaptado do romance de Elmore Leonard, o que quer dizer que as referências do chamado “Universo Tarantino”, onde todos os seus filmes se encontram, não faria sentido aqui. No entanto, aqui estão os anos 70, um thriller policial onde uma mulher forte participa de um esquema com alta soma de dinheiro, uma trilha sonora inspirada, uma fotografia saudosista e uma montagem que consegue manter o suspense até o último momento, desvendando cada um dos detalhes da trama de uma maneira coesa, mas nunca simples demais.

Tarantino e sua montadora, Sally Menke (infelizmente falecida em 2010), realizam um trabalho intimista que junta violência com realismo, sem nunca se esquecer do lado humano. Talvez seja o filme mais humano do diretor, pois seus personagens lembram mais pessoas de carne e osso, e não super-vilões estilizados. A exceção, para variar, ficaria por conta de Samuel L. Jackson e seu Ordell Robbie, um traficante de armas não muito esperto, mas violento quando necessário, que planeja um golpe gordo que tratá mais meio-milhão à sua poupança no México. O que ele não espera é que a captura de uma de suas capangas, Jackie Brown (Pam Grier), irá culminar em um outro esquema que almeja tirar dele o que já havia acumulado.

É interessante notar como o roteiro se preocupa em explicar todos os personagens antes deles começarem a se envolver. Dessa forma, o tratamento que Ordell dá a um capanga seu (uma participação bem-humorada de Chris Tucker), depois que ele descobre que ele poderá pegar 10 anos de pena e certamente abriria o bico, é o estopim para entendermos o que deverá acontecer com a própria Jackie. Ela, reparamos tanto em sua primeira interação com a polícia quanto com Ordell, está milhas à frente de ambos os lados, e só precisa tomar cuidado para dar cada passo, pois está mexendo com pessoas inseguras – seja o próprio Ordell como o responsável pela operação policial, o metódico-porque-não-é-confiante Ray Nicolette (Michael Keaton).

A sopa de personagens é enriquecida por Louis Gara (de Niro), um velho capanga que se limita a se drogar junto de uma das vadias de Ordell, Melanie (Bridget Fonda), e Max Cherry (Robert Forster), um agente de fianças que, assim como Jackie, após duas décadas no mesmo lugar, parece cansado de sua rotina.

E chegamos a Jackie, a estrela absoluta do filme, interpretada por Pam Grier, que fez filmes de espionagem e gore com o diretor Jack Hill na década de 70, e cuja participação não apenas simboliza seus personagens do passado, como é mais uma escalação comum do diretor, que resgata atores e atrizes das névoas do esquecimento. Jackie não precisa dizer nada para entendermos sua motivação e seu raciocínio. Aeromoça que ganhava alguns por fora trabalhando para pessoas como Ordell, acabou sendo presa no passado, limitando suas opções arrumando uma droga de emprego. Quando ela é pega, trama junto com Max um plano ambicioso para finalmente dar a volta por cima.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-08 imdb