Jane Eyre

2017/01/15

Enquanto Jane Austen (Orgulho e Preconceito) escrevia sobre a sociedade britânica com uma vivacidade e energia encantadoras, Charlotte Brontë parece ir no exato oposto com Jane Eyre, um romance extremamente pesado, que encontra nos drama do destino um fiapo de misticismo assombrando uma Inglaterra que parece estar à beira do seu declínio.

Adaptado por Moira Buffini para o cinema, este drama faz um resumo extremamente sintético e eficiente do romance original, abordando toda a dor e sofrimento de sua protagonista, principalmente por não entender seu lugar em um mundo estático do ponto de vista feminino. Isso vemos nos poucos diálogos que resumem os pensamentos de Eyre, mas principalmente nas expressões e trejeitos de Mia Wasikowska, que consegue através de sutilezas embarcar profundamente no psique de uma personagem fascinante, e embora ela pareça sempre à deriva dos acontecimentos, podemos notar sempre sua força de vontade em tentar mudar o sentido das gigantescas rodas do destino.

Essas rodas são tão bem representada por cenários lúdicos e grandiosos de casarões em meio à natureza em um horizonte isolado de tudo e de todos. O diretor Cary Joji Fukunaga (Beasts of No Nation) entrega um filme nos moldes tradicionais de filme de época, mas com certeza muito diferente de tudo que já foi visto. O uso que seu fotógrafo, o brasileiro Adriano Goldman (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias), faz dos cenários lembra vagamente Barry Lyndon (Kubrick, 1975), mas possui sua própria marca registrada, imprimindo na tela como se estivesse pintando quadros expressionistas a óleo, com as falhas da pouca iluminação borrando as margens dos objetos e pessoas em volta, mas ao mesmo tempo tornando-as eternas em enquadramentos que revelam uma sensibilidade complexa de Fukunaga, que não consegue resumir tudo em um simples tema autoral, preferindo junto de Goldman apenas ilustrar parte do que parece ser uma história muito maior.

Se a interpretação de Wasikowska consegue, ainda que contida, extravasar toda a dor de não ter tido a liberdade de ser quem ela quisesse e conhecer os lugares além do horizonte, seu par romântico, o irreconhecível Michael Fassbender, que aparece quando o filme já está praticamente na metade, evita mostrar muito seus olhos, como se quisesse esconder quem de fato é ou o que de fato esconde. Os mistérios que rondam sua obscura casa parecem combinar com suas roupas igualmente escuras, e é interessante notar como o figurino do filme segue a lógica da pobreza ser escura, enquanto que a riqueza, “iluminada”, sempre em tons mais claros. Apesar disso, conseguem exibir um vestido de noiva com um branco estranhamente escuro, o que revela a frustração antes mesmo que ela aconteça.

E toda essa sequência de eventos sem uma divisão exata em atos parece favorecer a lógica de edição de Melanie Oliver, que utiliza o estado de espírito dos personagens para guiá-la. Quando Jane está andando pelo jardim devaneando em pensamentos, vemos cortes imprecisos, elipses que aumentam (e tomadas que diminuem) durante uma caminhada. Já em momentos onde estão todos sentados em frente à lareira o uso de shot/reverse shot de Fukunaga consegue extrair o isolamento de seus personagens em um primeiro momento, para depois aproximá-los aos poucos.

Jane Eyre pode soar como um filme longo, extenso e pretencioso para quem busca uma história leve. Porém, se engana quem acha que é possível este ser mais um filme de época onde vemos figurinos bonitos e cenários idílicos. A história é pesada, complexa, e vai ladeira abaixo, exigindo a abordagem que é feita aqui. Ela é para os fortes de espírito, pois não tem um final necessariamente feliz. É para os que estão dispostos a entender que, quando queremos muito tomar as rédeas de nossa vida, mesmo os ventos mais misteriosos não terão poder sobre nossas decisões.

★★★★★ Título original: Jane Eyre. País de origem: UK. Ano 2011. Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Charlotte Brontë. Moira Buffini. Elenco: Mia Wasikowska (Jane Eyre). Jamie Bell (St John Rivers). Su Elliot (Hannah). Holliday Grainger (Diana Rivers). Tamzin Merchant (Mary Rivers). Amelia Clarkson (Young Jane). Craig Roberts (John Reed). Sally Hawkins (Mrs. Reed). Lizzie Hopley (Miss Abbot). Edição: Melanie Oliver. Fotografia: Adriano Goldman. Trilha Sonora: Dario Marianelli. Duração: 120. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Drama. Tags: netflix

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