Jessica Jones

Aug 18, 2016

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Uma história de super-heróis ligeiramente diferente do que a Marvel costuma contar, Jessica Jones é uma narrativa arrastada, que dá tempo de tela demais para a limitada Krysten Ritter (da série Breaking Bad), e que muda de tom durante sua história. No início há indícios de um noir pós-moderno, com cores na penumbra, uma protagonista bisbilhoteira de caráter (e um passado) duvidoso, e uma certa relativização do que é certo e errado; lá pela metade, com o surgimento do vilão Killgrave (o ótimo David Tennant) encontramos um curioso debate de quais são os papéis de bem e mal, assim como se vale a pena tentar salvar representantes da espécie humana conhecendo sua capacidade infinita para miséria de espírito, estupidez e egocentrismo; e no final, para conseguir executar seu “plano final”, manipula tudo que havíamos visto até então para entregar uma conclusão clichê e insossa, nos forçando a tentar gostar de uma heroína problemática e desgostar de um vilão no mínimo fascinante.

Agora, ignorando todo o roteiro, o universo criado pela editora de gibis para mais essa série é pseudo-fantasiosa, está integrada à cronologia dos Vingadores (até porque se passa em Nova Iorque), e contém os elementos populares que a produtora de internet Netflix está acostumada a trabalhar: cenas de luta, sexo, conflitos internos nos seus personagens. Ele convence a assisti-la até o final pela sua honesta convicção de estar trabalhando com elementos originais: não há heróis tradicionais aqui, pois eles ainda estão sendo forjados na dura realidade do dia-a-dia. No entanto, a cada novo passo adiante, conseguimos reconhecer alguma mudança. Isso acontece não apenas naqueles com algum poder, mas também nas pessoas normais, sejam elas viciadas, mesquinhas, traiçoeiras ou até… advogadas (Carrie-Anne Moss no automático).

A personagem de Jessica Jones de Krysten Ritter não é necessariamente ruim, mas sua atuação é. Com diálogos até que bem conduzidos pela (grande) equipe de roteiristas – com destaque para os episódios “AKA WWJD?” e “AKA Smile” – Ritter reduz tudo a uma repetição enfadonha, de quem está cansada de viver, mas que é compelida a continuar pelo simples peso da culpa que carrega pela morte dos pais e da última vítima que fez sob o controle de Killgrave. Isso não é particularmente eficaz quando a vemos ensaiar uma vida feliz com o forte, sem camisa e em breve com uma série só dele Luke Cage (Mike Colter em um papel digno). Há limites para a depressiva-compulsiva, mas esse limite Ritter parece desconhecer. Como consequência, fica difícil delimitar onde termina a fachada de auto-indulgência e onde começa os primeiros traços de um potencial ser humano em Jessica.

O mesmo erro não comete David Tennant, em um personagem com sotaque britânico – seguindo uma espécie de referência/diversão com filmes do agente secreto James Bond, onde o vilão é sempre o afetado. Killgrave sabe onde quer chegar (no topo, sempre) mas parece pouco ambicioso com todo o poder que tem de influenciar as pessoas (está preocupado/apaixonado pela única que deu as costas a ele?), já que para ele dominar as nações do mundo seria uma façanha fácil demais e que daria muito trabalho por nada, já que com frases simples ele consegue o que quiser, desde que haja pessoas presentes, que se transformam em objetos úteis para seu prazer e diversão (além de uma forma de descontar a raiva que sente por Jessica). Sempre com um tom pragmático e frio, ele desmascara toda a miséria humana por trás de uma vizinha chata e pergunta a J.J. quantas pessoas mais ele deve salvar para “zerar a balança” das pessoas que feriu/matou. Não é difícil imaginar como, depois de anos vivendo o paraíso de Dante (onde não existe os outros, mas meros objetos de uso geral espalhados por uma metrópole), Killgrave se enxergue como o centro do mundo e quase ignore a presença de indivíduos com desejos próprios porque, sempre que está presente, esses desejos pouco importam.

Moralmente, “Jessica Jones” parece buscar sempre a explicação para o caráter das pessoas, ou o que elas podem se tornar, na educação quando crianças. Quase todos os personagens importantes da história tiveram uma infância atribulada e traumática. Se isso é o que faz a heróina ganhar força, ou o vilão ser um resultado trágico do destino, eu não sei. Mas essa é a impressão que a história passa. Somos apenas peças inertes em um xadrez megalomaníaco, em um infinito ciclo de abusos desde criança. A série também arrisca emendar a natureza do estupro através do controle que Killgrave impõe sob suas vítimas femininas – algo que passaria despercebido do grande público não fosse um diálogo particularmente inspirado entre Jessica e Killgrave.

Mas apesar de conter horas e horas de conteúdo a respeito de seus personagens principais, é através dos secundários que a série parece sugerir a maior simpatia, e nesse micro-cosmos são eles que encontram um no outro o amparo de um mundo de cabeça pra baixo (onde o simpático Malcolm Ducasse/Eka Darville e a antipática Robyn/Colby Minifie são os expoentes máximos dessa dinâmica). O forte da série é mesmo em mostrar o podres das pessoas, e como é difícil acreditar no bem e defendê-lo quando é tão impossível sequer reconhecê-lo. A série faz um trabalho maravilhoso em mostrar o cinismo do mundo pelos olhos de Jessica – e isso manteve o espírito do noir – e deseja jogar tudo fora para seguir uma cartilha de como se tornar um super-herói mudando aos poucos, algo compreensível pelo appealing comercial, mas artisticamente apenas mais um sub-produto dos gibis.

Wanderley Caloni, 2016-08-18. Jessica Jones. Jessica Jones (USA, 2015). Dirigido por Simon Cellan Jones, S.J. Clarkson, David Petrarca, Stephen Surjik. Escrito por Melissa Rosenberg, Brian Bendis, Michael Gaydos, Ruth Atkinson, Otto Binder, Stan Lee, Joe Orlando, John Byrne, Chris Claremont. Com Krysten Ritter, Rachael Taylor, Eka Darville, David Tennant. IMDB.