João e Maria Caçadores de Bruxas

João e Maria, como pode-se notar pelo título e sub-título, é uma reinterpretação do conto infantil dos dois irmãos que, perdidos na floresta, acabam entrando em contato com uma bruxa que mora em uma casa feita de doces. Esse é o único detalhe de toda a trama que nos faz lembrar da história clássica. A partir do momento em que eles se livram da bruxa e a queimam viva a história muda completamente de tom. Naquelas duas faces jovens e satisfeitas por assistirem ao seu precoce primeiro assassinato podemos constatar impressionados que a história não é mais de duas crianças indefesas, mas de dois psicopatas.

Em uma criação de arte interessante ao conceber um antigo vilarejo com uma mitura de realismo e fábula vemos agora o já crescido casal de irmãos equipados com uma tecnologia tão avançada que se assemelha à mesma mágica usada pelas bruxas que estes se especializaram em eliminar. No fundo, podemos dizer que para aquelas pessoas simples do campo os exterminadores de bruxas possuem os mesmos poderes que estas, mas os usam para o “bem”: eliminar essas criaturas horrendas em troca de recompensas em dinheiro.

A história não deixa claro porque eles se especializaram em matar bruxas ou por que escolheram essa vida. Também não fica muito simples determinar qual a época retratada nem em que mundo vivem, pois uma pequena vila distribui garrafas de leite com desenhos de crianças desaparecidas — como se faz hoje em dia onde as cidades possuem milhões de habitantes — e existe uma espécie de jornal que narra as façanhas do casal eliminando essas pragas que aparentemente existem por toda a parte. (Fora que eles possuem já tratamento para diabetes.)

O que o roteiro escrito pelo também diretor Tommy Wirkola (Zumbis na Neve) e o estreante Dante Harper deixa claro é que não está se levando muito a sério, criando diálogos expositivos demais (“você nunca achou uma bruxa que não quisesse matar?”) que acabam por tornar toda a experiência previsível do começo ao fim. Mesmo as cenas de ação são criadas claramente para explorar apenas a sua versão tridimensional do filme — incluindo as cenas escatológicas — e vão perdendo aos poucos o dinamismo inicial, quando ainda não sabíamos as técnicas usadas pela dupla de irmãos para capturar seres que voam em uma vassoura a velocidades impressionantes.

Mesmo assim, o que Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros falhou em utilizar efeitos digitais à exaustão e um tom mais sério totalmente inapropriado para sua história, João e Maria: Caçadores de Bruxas entende que não se recria uma fábula com pano de fundo trash sem conter em seu subtexto algumas piadas a respeito de si próprio ou do mundo fora do filme. E se o fato de existir um troll chamado Edward não é prova o suficiente, não sei o que é.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-01-28 imdb