Jogos Vorazes: A Esperança - O Final

Nov 22, 2015

Imagens

Se pudesse resumir com uma palavra não apenas a parte final, mas a saga de quatro filmes baseados nos livros de Suzanne Collins, eu diria que “corajoso” é uma escolha interessante, embora incompleta. Ser corajoso brincando com a noção de poder estatal hoje em dia parece ser chover no molhado, mas é preciso lembrar que o último livro foi lançado em 2010, e em cinco anos muitos detalhes do jogo político do livro foram apreendidos por jovens leitores, além de ser intensificado o debate nas correntes underground desse tipo de discussão. Sim, ser corajoso pertence à lista de motivações literárias de Collins, mas mais do que isso, entender as mudanças em torno da crise de 2008 e se debruçar como realmente funciona o jogo político há milhares de anos é o que torna Jogos Vorazes: a Coleção, como um guia completo de como o governo engana todos seus súditos pelo poder eterno de exploração.

Mais uma vez dirigido pelo competente Francis Lawrence, o roteiro Peter Craig e Danny Strong feito em cima da adaptação da própria Collins parece gritar aos quatro ventos que todos os peões envolvidos na batalha final são exatamente o que são, e que seus símbolos de coragem e rebeldia são peões pintados de dourado. O próprio dourado do símbolo do Tordo aqui parece apropriado, assim como é apropriado que o “traidor” Peeta fira Katniss justamente em sua garganta, afetando temporariamente sua capacidade de falar, a primeira cena dessa segunda parte.

Acertadamente se concentrando mais nos diálogos e usando a ação como catalisador disso tudo, “Jogos Vorazes - O Final” se torna realmente corajoso em apostar em um ritmo muito mais lento que os seus anteriores, mas com a vantagem de soar infinitamente mais ambicioso em suas pretensões alegóricas. Se você espera uma batalha grandiosa, não entre na sala de cinema, a não ser que essa batalha que espera esteja na mente de seus idealizadores. Quase roubando a cena está o jogo de cena que se desenvolve fora dos campos de batalha, entre a ambiguidade dos atos e a necessidade de acreditarmos em um lado para poder lutar.

Tecnicamente irrepreensível – se você perdoar o uso excessivo de efeitos digitais – o filme continua mantendo o tom fantasioso e ao mesmo tempo realista de Panem. Dessa forma, as estratégias dos rebeldes para avançar em direção à Capital é sóbria, e irá lembrar momentos pontuais de obras mais ambiciosas como Senhor dos Anéis, Star Wars e até mesmo Matrix: Revolution. Porém, como já disse, o campo de batalha mais interessante está, como sempre, no marketing, e esse existe ferozmente em tempos de guerra. Ainda que seja pouco visto de baixo, os melhores momentos passam nas pequenas telas em torno dos escombros das cidades, ainda exibindo as transmissões de governantes e inimigos.

Não espere muita ação em Jogos Vorazes: o Final, mas quando ele acontece, choca e convence. Pior do que isso, porém, é a “batalha” final, com um clímax que choca tanto que fica difícil acreditar qual dos lados tomaria uma decisão dessas. A direção de Lawrence é importante justamente nesses longos segundos, onde bombas, confusão e tiros se confundem em uma multidão tentando se salvar. A câmera em punho mantém um clima de desorientação extremamente eficaz. As cores drenadas das vestes dos habitantes da Capital simbolizam a quase-miséria que Panem se transformou.

Concluindo com chave de ouro uma saga que tinha tudo para se transformar em um romance bobo que envolve um trio amoroso (estou olhando para você, “saga” Crepúsculo), essa é uma franquia, assim como seu último roteiro, marcada para vencer. Sua materialização em forma audio-visual apenas deve ressaltar o interesse de cinéfilos-leitores de ler a obra original. Mas como cinéfilo apenas, é uma obra inestimável para os tempos atuais, não tão sombrios como em Panem, mas com ideias tão horríveis quanto as ideias de seus governantes, especialistas em marketing, psicopatas disfarçados de vontade divina (ou democrática).

Wanderley Caloni, 2015-11-22. Jogos Vorazes: A Esperança - O Final. The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 (USA, 2015). Dirigido por Francis Lawrence. Escrito por Peter Craig, Danny Strong, Suzanne Collins, Suzanne Collins. Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Willow Shields, Sam Claflin. IMDB.