De Volta ao Jogo

Sep 28, 2018

Imagens

Um drama pessoal que escala em uma espiral de violência e poder em um universo que caminha confortavelmente entre realismo e absurdo. O drama de perder a esposa doente depois de abandonar o trabalho que dava significado a sua vida é um realismo pesado. Roubarem seu carro e matar o cachorro que a esposa lhe deu como último presente é de um absurdo dilacerante que motiva qualquer um a sair em busca de vingança. E se você é John Wick isso significa uma sentença de morte para muita gente.

Dirigido com um cuidado especial pelos diretores Chad Stahelski e David Leitch, onde o primeiro trabalhou na equipe de dublês em filmes de ação e o segundo estava envolvido em trabalhos similares, as cores e enquadramentos harmonizam lado a lado a atmosfera de solidão; o uso de uma tela mais estreita permite que o filme coloque John Wick no começo do filme em isolamento completo. No funeral, na chuva e com toda a cidade ao fundo, ele parece ter um único amigo que o cumprimenta debaixo de uma árvore. Já sua casa é gigantesca e que se torna ainda mais com o uso minimalista da direção de arte que usa poucos enfeites, e onde as cores frias desempenham o papel de estado de humor do personagem, à beira da depressão.

Se você se surpreende com esses detalhes que descrevo em um filme de ação sanguinário é porque este é um trabalho que se destaca de todos os demais. Ele possui alma. Seu protagonista é uma força da natureza. Surpreende que que ele seja interpretado pelo inexpressivo Keanu Reeves, mas mais surpreendente é que funciona. John Wick é uma pessoa simples demais para um ator mais flexível. Ele só queria viver em paz. Já que não pode o jeito é partir para a ignorância.

Este é um filme longo e que consegue ter cenas de ação mais longas que o normal sem sentirmos cansaço. Mais uma vez acima da média, a coreografia das cenas mantêm o espectador sempre atento para descobrir como John irá passar por tantos capangas e esquemas de segurança que foram colocados entre ele e seu alvo.

Aliás, outro toque de classe na obra é seu próprio universo de assassinos. Há um valor em comum para transações que não são rastreáveis e que não perdem o valor nem para o dólar: moedas de ouro. Há um hotel onde é proibido assassinatos para que possam descansar em paz, e quebrar essa regra, pode apostar, é o que um filme desses deve fazer.

Este é um roteiro aparente previsível assinado por Derek Kolstad, que já trabalhou em filmes e séries do gênero como A Última Bala e Hitman. Sua estrutura simples torna claro o desfecho da história, e nisso você pode apostar em previbilidade. Mas quando se nota os personagens secundários e suas sutis reviravoltas (como a ponta de Willem Dafoe), ou como quase nada precisa realmente ser dito – o aspecto descritivo do roteiro é o que garante nosso prazer visual – daí o filme mantém um pouco de caos para uma diversão eventual. O suficiente para nos preocuparmos com o enredo.

“John Wick” mantém uma capa de realismo para usar frases de efeito como “você roubou meu carro e matou meu cachorro” ou “uma vez ele matou três caras com apenas um lápis” e não soar fantástico demais; é mais um escapismo delicioso do gênero de ação. E fica ainda melhor quando temos um protagonista tão visceral quanto este. Keanu Reaves é a força da natureza sem expressão que quando se sente ameaçado é melhor você estar do outro lado da tela.

Wanderley Caloni, 2018-09-28. John Wick (China/EUA, 2014). Escrito por Derek Kolstad, dirigido por Chad Stahelski e David Leitch. Com Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen. IMDB.