Juliet, Nua e Crua

Oct 9, 2018

Imagens

É curioso ver o ator de IT Crowd, Chris O’Dowd, fazendo um romance dramático, um pouco longe da série de humor onde é mais conhecido. Ele consegue estabelecer um personagem que para mim é a grande questão de “Juliet, Naked”: quando a emoção por algum motivo fala mais alto nosso senso crítico fica gravemente abalado.

Veja seu personagem, Duncan. Ele teoricamente é um conhecedor de artes, dá aulas na cidadezinha local sobre filmes e séries relacionando os com clássicos gregos. Ele é um apaixonado, mas sua visão da realidade que o cerca parece no mínimo deturpada. Prova? Por algum motivo que as falas de seu personagem e a interpretação do ator não deixam passar ao público, considera a TV a única coisa que não está decadente na sociedade atual. Se isso não soa no mínimo um disparate para você, talvez você entenda a mente desse introvertido rapaz.

De qualquer forma, esta sua opinião pop é um elemento a mais para entendermos por que ele venera tanto Tucker Crowe, um cantor de rock obscuro dos anos 70 que lançou alguns hits melosos rapidamente esquecidos. Para sempre.

Não para Duncan. Simplificando sempre sua visão crítica sobre o mundo, ele diz para quem ainda tiver paciência de ouvir que o cantor é um gênio e todas suas músicas obras primas. Alguém que anda sem paciência para isso, até porque escuta a mesma coisa por 15 anos, é Annie, sua namorada, que se juntou com o rapaz por ser a única pessoa minimamente interessante pela pacata região.

Para entender mais uma vez o nível de infantilidade desse professor de artes, os dois brigam quando ela faz um comentário negativo sobre uma versão da mesma música venerada por seu namorado. O único comentário negativo do site de Duncan, que graças ao milagre da internet reúne todos os fãs malucos do cantor desaparecido por décadas.

(O que me faz pensar que seu desaparecimento é mais um motivo para o surgimento de um ídolo, e por mais descabido que isso seja não está muito longe da percepção de sucesso da maioria das pessoas. Grandes astros no início de carreira foram imortalizados não por continuar o bom trabalho, mas por morrer jovem.)

Mas divago como Duncan.

Claro que o único momento que Tucker Crowe responde a alguém nesse fórum, no privado (claro), é quando a namorada de seu maior fã faz o único comentário sensato de todo o site, e que se alinha ao que o próprio Crowe vem pensando sobre si mesmo: sendo pai relapso de vários filhos espalhados entre várias mães, sua auto estima não anda das melhores. Esse álbum nunca foi grande coisa, constata. Mas ele lê o fórum de seus fãs. É uma construção de personagem cheia de detalhes sutis que Ethan Hawke mata a pau sendo apresentado como tentando ser um bom pai para seu filho mais recente. Crowe pode não ser um grande músico, mas está tentando pelo menos ser um pai dentro da média.

As situações em torno de “Juliet, Naked” são parte do roteiro padrão de romances nesse estilo, mas por causa dos personagens bem escritos o filme adquire um certo ritmo que é admirável, pois mesmo sabendo de todos os clichês surgindo não nos importamos com eles, mas com as pessoas em volta. Isso com certeza tem relação às ótimas atuações do trio principal, que compra a ideia de algo ligeiramente mais intimista do que o normal despretensioso dos romances medíocres.

Por outro lado a direção nos mantém sempre bem acolhidos em lugares que refletem a personalidade de cada um envolvido, desde o cafofo subterrâneo de Dalton que é um altar disfarçado do seu grande ídolo, ou a própria “residência” de Crowe, em uma garagem bagunçada, vivendo ao lado de sua ex. Além de soar natural (por não exagerar nas caricaturas) o filme com suas cores frias, mas presentes, tem aquele clima aconchegante britânico. E eu adoro filmes britânicos.

Mas voltando à grande questão que coloquei no início do texto, quero que preste atenção nela. Além de um romance entre pessoas este filme conta também sobre um romance que às vezes desenvolvemos com nós mesmos, por insegurança e uma auto afirmação vazia. É assim que Duncan alimenta sua obsessão por um cantor que ninguém mais dá a mínima. Isso o torna, de certa forma, especial. E por causa disso ele se agarra às suas convicções furadas até o fim, dando a oportunidade da melhor frase do filme: “arte não é para artistas, assim como a água não é para encanadores”. Se essa frase não é genial e a obra prima de alguém, não sei o que pode ser.

Wanderley Caloni, 2018-10-09. Juliet, Naked. EUA, 2018. Escrito por Tamara Jenkins, Jim Taylor e Evgenia Peretz baseados no romance de Nick Hornby. Dirigido por Jesse Peretz. Com Chris O'Dowd, Rose Byrne, Kitty O'Beirne, Ethan Hawke. IMDB.