Julieta

Jul 31, 2016

Imagens

Como sempre, sabemos desde o começo que este é um filme de Pedro Almodóvar, no estilo melodramático dele (e das cores do figurino, da direção de arte de muito bom gosto, etc). A trama mais uma vez envolve o passado misterioso de uma mulher – a Julieta do título – e mais uma vez as mulheres são as personagens fortes. E, para não deixar em branco, há uma tragédia grega senso usada como pano de fundo. Almodóvar nunca muda seus trejeitos, mas sua inventividade reciclada não gera os melhores frutos.

A história começa quando Julieta (Emma Suárez), depois de um ano planejando sua mudança para Lisboa com o marido, decide ficar em Madri após o encontro com uma amiga de longa data. Após o encontro, ela decide também redigir uma longa carta – vulgo o filme – onde conta para sua filha, desde o início, como conheceu o pai dela e os acontecimentos que levaram-na a um desfecho catastrófico para todos.

Conseguindo ser um hábil contador de histórias assim como um hábil diretor, Almodóvar nos deixa tensos e presos à história, e a cada detalhe desta, do começo ao fim. Algumas vezes, é verdade, ele abusa um pouco da trilha sonora dramática, que soa repetitiva. Na maioria do filme, no entanto, é a própria história e a forma de contá-la que mantém em suspenso qual será o próximo acontecimento.

E isso é graças às famosas metáforas de sua obra. Aqui, Julieta é professora de literatura grega, e conta sobre as três palavras usadas pelos gregos para se referir ao mar, sendo uma delas tendo a semântica de “caminho”, como se o mar fosse uma alternativa ao mundo mais estável e conhecido da terra firme: a aventura. Nós sabemos que os gregos possuíam o destino como um personagem à parte, se divertindo às custas dos humanos. Aqui nunca isso foi mais verdade.

Vemos isso logo no começo da história, quando um galho bate no trem onde Julieta está, e um homem mais velho procurando por companhia adentra seu vagão. Uma tragédia ocorre a partir daí e poderíamos unir causa e consequência até o ato inicial de Julieta, o que a torna a própria mensageira da desgraça. Isso a marca para sempre, pois foi ali que conheceu Xoan (Daniel Grao).

Xoan é um pescador que, começando a viver o luto da mulher que estava em coma há cinco anos, recebe a visita de Julieta e tem com ela uma filha; ao mesmo tempo, Julieta (Adriana Ugarte) reprova a falta de cuidados com sua mãe pelo seu pai, que arruma uma jovem amante estrangeira enquanto deixa a mãe enferma trancada em um quarto. A passagem do tempo é fugaz, quase não a vemos, apenas pelo ponto de vista de protagonista.

A passagem acelerada do tempo, aliás, consegue convergir décadas em questões de minutos, e Almodóvar consegue sintetizar sua história maravilhosamente bem até a metade da projeção. Depois, suas metáforas perdem a força, e acontecimentos imprevistos explicam a perda de contato entre Julieta e sua filha. No entanto, parece termos mudado de rumo no meio da história, mesmo que ela tenha sido anunciada nos minutos iniciais do filme.

Dessa forma, Julieta é um trabalho mal-acabado, que prometia ser outro dos trabalhos magistrais do contador de histórias espanhol. Do jeito que está, se assemelha mais às novelinhas ocasionais do diretor, como Abraços Partidos.

Wanderley Caloni, 2016-07-31. Julieta. Julieta (Spain, 2016). Dirigido por Pedro Almodóvar. Escrito por Pedro Almodóvar, Alice Munro. Com Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Emma Suárez, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Nathalie Poza, Agustín Almodóvar. IMDB.