Jurassic World: Reino Ameaçado

Jun 25, 2018

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O tema sério de Jurassic Park, sobre a responsabilidade do ser humano sobre o planeta, incluindo a própria natureza (uma mensagem bíblica contida em um livro de sci-fi?), já foi torcida e retorcida tantas vezes que hoje em dia só sai uma gotinha de arrepio. Há uma gotinha extra, de sangue, para a diversão inconsequente. É lá que estão os milhões gastos em produções como essas.

E Jurassic World: Reino Ameaçado não tenta absolutamente nada mais que isso. Um resumo em lista: travestido de mensagem ecológica (a analogia com aquecimento global é tão óbvia que Jeff Goblin poderia resumir seu discurso que inicia/termina o filme apenas dizendo isso), devidamente embutido de mensagens SJW, cotas sobre empoderamento feminino (logo esquecido, assim como a “paleoveterinária” da história), além de contar com personagem negro, nerd e magro (Justice Smith) que supostamente deveria ser o alívio cômico, mas que consegue apenas dar a deixa para cortes de cena e tenta não ser muito irritante (spoiler alert: não consegue).

Já o casal principal formado pela donzela em perigo Bryce Dallas Howard e seu macho alfa Chris Pratt estão bem e apenas revivem em pedaços a aventura vivida no ótimo reboot da série. Eles possuem uma pequena tensão sexual acentuada pelo fato de que a atriz é extremamente gostosa, e o cineasta faz questão de deixar claro nas cenas que ressaltam seus seios e quadril. Eles não são alívio cômico e quase não movem a história. Ela nem precisa ser movida com esse fiapo de roteiro, em que os próprios donos do parque original pretendem resgatar os dinossauros quando o vulcão da ilha entra em erupção, usa a ajuda do casal principal fingindo que irão construir um santuário (há várias sequências daquele recurso batido da falta de comunicação para salvar o verdadeiro visionário do parque de culpa, além do segredo a respeito de uma menina absolutamente dispensável ser encoberto como se fosse algo impressionante (spoiler alert: não é). Na verdade irão vender e quando o casal descobre eles tentam impedir… não sei exatamente como. E não sei exatamente por quê os donos dos dinossauros acham que eles precisam ser mortos, não é como se houvesse alguma ameaça real do hot couple contra os planos maléficos dos donos dos dinossauros envolvendo sua mercadoria.

Mas este é um filme cujos momentos foram planejados unicamente para fazer referências a praticamente todas as cenas icônicas dos filmes anteriores. Se esse é um recurso usado para homenagear ou repetir o efeito que isso gerou em cada um desses momentos, não será possível dizer, pois praticamente todos eles não funcionam, pois não estão conectados com a coisa real. O exemplo mais marcante é a visão de um brontossauro surgindo ao fundo. Seja pela interpretação convencional da garota empoderada (a boba Daniella Pineda), que vê um dinossauro vivo pela primeira vez, ou pela rapidez com que o momento é construído, o fato é que além de ser uma cópia descarada de um dos momentos mais belos do original ainda soe mal feito. Isso por sua vez inverte as expectativas a respeito dos novíssimos efeitos digitais deste filme, que acabam enaltecendo não eles próprios, mas o pioneirismo e a construção de clima no trabalho original de Spielberg algumas décadas (e muitos, muitos gigahertz de processamento) atrás.

Com um enredo que existe meramente para voltarmos a esse mundo, a história sequer se preocupa em apresentar personagens que façam algum sentido. Quando o rabo de saia convida o macho alfa para voltar para a ilha, agora em erupção, sozinho, para buscar o filhote de dino que ele cuidou desde a infância, não importa. Apesar de Chris Pratt ser um excelente ator de comédias, essa parte dramática faltou para dar peso à história.

O que dizer mais? Os vilões são os 1% mais ricos, que fazem um leilão pelas criaturas orquestrada pela figura horrenda de um ator competente (Toby Jones o nome), mas que aqui se presta a uma caricatura (que nem assim se torna convincente). Ah, quase ia esquecendo: o caçador dessa vez ele próprio já é chamado de cada como o White Male Hunter, uma figura recorrente na série. O fato dele ser exatamente isso e nada mais mais uma vez comprova que este não é um filme em forma de parque, mas um parque de diversões em forma de filme. Assista na ordem que preferir.

Wanderley Caloni, 2018-06-25. Jurassic World: Fallen Kingdom. EUA, 2018. Escrito por Derek Connolly e Colin Trevorrow baseado nos personagens de Michael Crichton. Dirigido por J.A. Bayona. Com Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall. IMDB.