Kick Ass 2

Tudo que o original tinha de divertido e tenso – a violência exacerbada envolvendo crianças e a própria realidade da loucura que é ser um jovem vigilante – foi retirado nessa continuação, que soa mais como uma produção Marvel. Afinal, é isso o que o público hoje se contenta em ver: baixos riscos, altas expectativas.

É impressionante como, teoricamente apresentado como um filme de comédia e ação, Kick Ass 2 nunca deixa de ser um dramalhão adolescente para adolescentes e, quando emplaca, logo termina. A moral da história é que, apesar de constantemente os personagens falarem que aquilo que estão vivendo não são quadrinhos, que aquilo é vida real e pessoas podem morrer, mais a morte é banalizada e menos efeito parece ter naquelas pessoas, e mesmo um casal de pais em busca do seu filho perdido não se importa em colocar em risco os filhos dos outros. Talvez porque, afinal de contas, a contagem dos corpos revela apenas adultos, e desde que nenhum jovem ou cachorro seja gravemente ferido, mais um dia a justiça (para sempre) foi feita.

Não que eu me importe com um filme que faz questão de matar quase todos os adultos relevantes. Deve haver alguma mensagem subliminar em algum lugar do roteiro do diretor Jeff Wadlow. O problema é quando os adolescentes que sobram e seus “dilemas existenciais” ficam insuportáveis, mesmo quando minimamente construídos como a de Mindy/Hit-Girl (mesmo que Chloë Moretz, muito melhor em Carrie, insista em dar aquele sorrisinho pelo canto da boca). E é um sintoma problemático quando a ausência de Nicolas Cage é sentida exatamente pelo seu peso dramático.

Mas não se desapontem. Existe violência em Kick Ass 2, e até um pouco de sangue. Mas ela é descarregada de maneira mecânica, automatizada e au passant. Quando vemos Mama Russa (Olga Kurkulina, uma fisiculturista) detonar com 10 policiais sozinha não ficamos impressionados da mesma forma que seus boquiabertos capangas, mas pensando se realmente esse comportamento condiz com um bandido profissional altamente remunerado (pelo menos os que mantém uma carreira de médio prazo sem serem presos). Da mesma forma, a morte de dois personagens importantes passa tão batido que ficamos em dúvida se já passou algum tempo na história e não ficamos sabendo, ou a atmosfera em torno dos “super-heróis” é tão fascinante que os torna sociopatas treinados.

Escorregando em quase todos os momentos, mas mantendo a ação acontecendo também, Kick Ass 2 não é uma experiência ruim, mas está longe de conseguir um simples momento memorável. Com alguns resquícios de ideias interessantes – como o tubarão no aquário gigante que parece morto – fica mais a saudade do universo do filme original. Esse sim, menos colorido visualmente e mais interessante tematicamente.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-03-10 imdb