Kill La Kill

Oct 19, 2014

Imagens

“Não fazer sentido é com a gente!”, repete a heroína Ryuko Matoi nos capítulos finais do anime Kill La Kill. Parte de sua inspiração vem de sua amiga inseparável Mako Mankanshoku, que muito provavelmente entraria em várias listas de personagens mais carismáticas, engraçadas e “sem sentido”.

Esse é o primeiro trabalho da produtora Trigger, fundada em 2011 por Hiroyuki Imaishi e Masahiko Ohtsuka. Importante notar que ambos faziam parte da Gainax, responsável por trabalhos visualmente ambiciosos como Neon Genesis Evangelion (que inspirou Guillermo del Toro, um idealizador fissurado em animes, a criar uma versão live action chamada Pacific Rim). Por que é importante notar isso? Porque Kill La Kill, embora não se beneficie de um roteiro bem construído, possui uma energia visual tão caótica quanto contagiante.

E por que o roteiro não é tão bom? Tirando uma ou duas reviravoltas particularmente empolgantes – e bem construídas no decorrer do episódio onde ele se desenrola – o formato dos episódios segue uma cartilha básica engessada que muitas vezes não encaixa com a história que quer contar. Todos adoram ver o momento Aleluia do alívio cômico da trama, Mako Mankanshoku, mas nem sempre esse momento cabe no meio da tensão de uma batalha ou do desgaste físico e psicológico dos personagens. Além disso, os flashbacks chegam a incomodar de tão mal colocados durante a apresentação da trama, como se cada episódio desconhecesse os próximos, e nada estivesse realmente definido. E o que dizer das surpresas finais que parecem ter sido jogadas de uma tarde de RPG com os amigos?

A direção também comete seus pecadilhos, abusando de repetições engessadas em demasia. Podemos notar isso nos letreiros e apresentações gigantescas (mesmo que estilosas), rituais de transformação reexibidos quadro-a-quadro, como o uso da música-tema de seus personagens mesmo em momentos onde é totalmente inapropriado (como em uma batalha com uma menina que ataca pelo som de sua orquestra).

Tudo isso, porém, é compensado pelas trucagens visuais e uma inspiração que transforma uma “gameficaçao” dos personagens em um apelo surreal que funciona maravilhosamente bem: um mangá exagerado e em movimento. A edição é ágil em criar sequências de quadros praticamente paralisados, mas significativos esteticamente (lembrando Dragon Ball Z e Cavaleiros do Zodíaco).

Tenho uma queda particular por filmes (ou séries) que exploram seu tema ao máximo. No caso de Kill La Kill como o tema são as roupas, não dá para negar que é um conceito explorado desde o básico até o mais inusitado. Aliás, as roupas são um lugar-comum tão natural em um mundo dominado por cosplays que até me admiro não ter visto mais trabalhos que explorassem essa relação dos poderes dos personagens e suas roupas. e isso ganha contornos (sem trocadilho) bem mais ambiciosos ao tentar unir a academia cercada de miseráveis, a eleição natural que ocorre e uma guerra onde todos são convocados. E o que dizer quando as explicações se desdobram em cada vez mais analogias.

O seriado ganha realmente força com a primeira reviravolta relevante que dá inicio à sua segunda fase. Parece que a partir desse momento a equipe de Kill La Kill dá uma revitalizada em seus conceitos, se desprendendo ligeiramente das convenções estabelecidas e nos apresenta uma vilã psicótica e suficientemente interessante para rivalizar com Mako (não em alívio comico, é claro). Prova disso é a capacidade sutil dessa vilã de interagir com os letreiros gigantescos que a apresentam, expressando de maneira econômica que passamos para uma nova “camada da Matrix”. Até as brincadeiras com metalinguagem, antes batidas, ganham um contorno mais divertido (Mako questiona-se finalmente ter atingido uma posição de destaque, tanto na academia quanto no roteiro).

Além de ignorar um pouco os chatos discursos expositivos, essa fase de KLK tem uma luta visualmente deslumbrante que agarra duas origens de animação para elevá-la ao máximo de criatividade e expressividade, chegando nesse momento a ser comparável com o espetacular Madoka Mágica (visualmente e até tematicamente). Pena que os roteiristas não conseguiram unir a beleza das lutas caóticas e da estilização das roupas e seus inesquecíveis (pelo menos visualmente) personagens com uma história um pouco menos… sem sentido.

Wanderley Caloni, 2014-10-19. Kill La Kill. Kill La Kill (Japan, 2013). Dirigido por Akira Amemiya, Hiroyuki Imaishi, Alex Von David. Escrito por Kazuki Nakashima, Alex Von David. Com Ami Koshimizu, Aya Suzaki, Toshihiko Seki, Shin'ichirô Miki, Zach Aguilar, Ryôka Yuzuki, Ayumi Fujimura, Christine Marie Cabanos, Erica Mendez. IMDB.