Kingsman: Serviço Secreto

May 20, 2015

Imagens

Estou passando atualmente por uns mal bocados à noite por causa de um culto religioso organizado por retardados mentais em um galpão próximo daqui. Além da figura horrenda de um pastor cuspindo seu ódio em gritos ao microfone que “elevam” a raça humana à posição de escória do planeta, tal evento é realizado muito provavelmente em um local infetado de pessoas cujo passado eu temo saber, já que ele tem que ser terrível o suficiente para que alguém se sujeite a um ritual que denigre a dignidade humana a níveis que, caso um mendigo estivesse presente, sem tomar banho nos últimos meses, tossindo um catarro de cor e forma desconhecidos enquanto grunhe e coça seus órgãos genitais, por comparação ele se transformaria no cavalheiro mais refinado, educado e interessante de todo o recinto.

Entao não imaginam a coincidência irônica de eu estar assistindo a Kingsman exatamente no horário desse show de horrores. Isso porque nesse filme há um momento dos mais inspirados, onde o agente secreto realiza uma verdadeira carnificina em uma igreja dirigida por um pastor também vestindo seus trajes de ódio e rancor. Se eu precisasse te convencer a assistir esse filme, seria precisamente por causa dessa cena.

Mas nem de longe o filme é apenas isso.

Brincando todo o tempo sobre as referências a respeito de filmes de espiões, e filmado nos mesmos moldes (afinal de contas, é o Império Britânico), o filme dirigido pelo mesmo Matthew Vaughn de Kick Ass é de uma lógica absurda como os filmes de espionagem, mas aos poucos ele se revela como uma abordagem muito mais realista do que os próprios filmes que homenageia. E não são poucos: a série James Bond, a série Bourne, 24 Horas (conta como filme), Kill Bill, Pulp Fiction. Se Quentin Tarantino resolvesse filmas uma aventura de espionagem, esse seria um resultado muito próximo (talvez com mais cenas paradas e diálogos).

Não à toa, seu super-vilão é ninguém menos que Samuel L. Jackson em uma mistura de seus personagens nos filmes do Tarantino com um bônus: Corpo Fechado. Aqui faz Valentine, um bilionário que usa dinheiro de filantropia para tentar salvar o mundo, com um sotaque língua-presa que oscila com harmonia entre o cafona e o memorável (em determinado momento ele acusa uma outra pessoa de não estar falando direito). Avesso a qualquer visão de violência, como sangue, ele possui a capanga mais eficaz de todas (também fruto de uma série de filmes), que usa sapatos de corredor para deficientes como lâminas afiadíssimas, a ponto de cortar uma pessoa ao meio (coisa que de fato ela faz!). Seu nome? Gazelle (Sofia Boutella). Sim. Kingsman é divertido ao máximo até nos nomes.

E por falar em nomes criativos, Kingsman é o nome grupo de agentes especiais que simulam a formação dos cavaleiros da Távola Redonda. Cada membro representa um cavaleiro e ganha o seu nome. Quando Lancelot (Jack Davenport) morre de uma forma trivial para quem acha que está assistindo uma ação quase estilo Mercenários (como sua introdução nos faz crer), o filme nos lembra que na vida real mortes acontecem com agentes ultra-especiais às vezes da forma mais trivial possível. E isso nos entrega a fórmula que torna o filme sempre empolgante: nunca sabemos o que pode acontecer, porque apesar de homenagear filmes com roteiros mais ou menos estruturados da mesma forma, ele resolve entregar um realismo que normalmente não está presente lá. Ao mesmo tempo, isso é uma pista que ecoa em dois momentos-chave do filme seu meio e seu final, justamente uma troca de diálogos entre Valentine e Galahad.

Ah, me esqueci de apresentar Galahad. Bom, ele é Colin Firth sob o efeito de esteroides, mas ainda mantendo seu charme de O Direito de Amar e a aristocracia de O Discurso do Rei. Seu terno é feito sob medida, da mesma forma com que suas decisões em torno do filho de Lancelot parecem ser. Não há espaços para muitos sentimentos em Kingsman, mas quando eles acontecem, são bem embasados e estão organicamente inseridos em seus personagens, que vão se tornando, se não tridimensionais, cada vez mais críveis.

É assim que o roteiro de Jane Goldman e o próprio Matthew Vaughn, baseados na graphic novel The Secret Service, de Mark Millar e Dave Gibbons, consegue transformar Lee (Jonno Davies) de um garoto sem rumo que vê sua mãe e irmã vítimas de violência doméstica (corajosamente inserida na trama), para um dos candidatos mais competentes nas provas de classificação de quem seria o próximo Lancelot, mesmo que este não tenha o pedigree esperado dos gabaritados jovens frequentadores de escolas como Oxford e Cambridge.

A história de Lee vai cuidadosamente sendo preenchida, com detalhes tão pequenos quanto assumir a responsabilidade por roubar um carro, quanto detalhes mais palpáveis como a amizade que faz com seu cachorro, mesmo depois de perceber que ele não seria muito útil para o serviço. Quando acontece um ponto de virada no filme, não é à toa que ele se torna grandioso quase que automaticamente. Todos os personagens se assemelham a pessoas de carne e osso vivendo em um mundo colorido com a tinta dos filmes de ação. E, para falar a verdade, essa mesma tinta é a que parece colorir a cabeça da geração que não precisa se preocupar tanto com guerras e fome. A mesma geração que criou um Valentine e seus seguidores.

Ao que chegamos na metade final do filme, que se torna absurdamente frenético, e que consegue preencher a tela com tantas referências de tantos filmes distintos (ou não) que acabamos ficando com outra coisa: um apanhado desse universo servindo ao propósito da narrativa com uma maestria meticulosa. Ele brinca com a tecnologia atual, que às vezes é incômoda e nem sempre funciona. Ele usa os velhos jargões do satélite que tem que ser destruído e o esconderijo secreto construído dentro de cavernas como se eles fossem algo novo. Ele não tem medo de usar a hiper-violência misturada com uma pequena dose de realismo para estabelecer seus argumentos.

No final, fica difícil não gostar de um elenco fabuloso trabalhando com uma história afiadíssima. De quebra, temos as participações eficientes de Mark Strong e Michael Caine, que conseguem surpreender mesmo em posições de menor destaque. Enfim, um prato cheio de pipoca com uma taça cheia de vinho.

Wanderley Caloni, 2015-05-20. Kingsman: Serviço Secreto. Kingsman: The Secret Service (UK, 2014). Dirigido por Matthew Vaughn. Escrito por Jane Goldman, Matthew Vaughn, Mark Millar, Dave Gibbons. Com Adrian Quinton, Colin Firth, Mark Strong, Jonno Davies, Taron Egerton, Jack Davenport, Alex Nikolov, Samantha Womack, Mark Hamill. IMDB.