Kubo e as Cordas Mágicas
Wanderley Caloni, 2016-12-03

Kubo é uma animação em stop motion que usa um monte de elementos computacionais para tornar tudo muito mais fluido, mágico e… não-stop motion. Porém, ao mesmo tempo, ele se aproveita da técnica para tornar tudo muito mais real. Ele conta uma história oriental com o herói sendo uma criança, mas não são exatamente coisas de criança que ocorrem com ele. A maior virtude do filme talvez seja sua não-infantilização de um filme que entende que crianças podem aguentar discussões que envolvam a morte, e não há nada de errado em um garoto não ter seu olho esquerdo.

Estreia do diretor Travis Knight, que já trabalhou como animador em Coraline, Paranormal e Boxtrolls, Kubo conta a triste história de uma mãe que foge de uma briga feia de família, onde uma de suas irmãs arranca os olhos de seu filho. Ambos vivem escondidos em uma caverna do lado de um vilarejo, onde Kubo todos os dias desce e conta uma história heroica sobre seu pai, através de seu shamisen, um instrumento de corda oriental clássico com três cordas, que faz com que suas folhas de papel saiam voando magicamente e criem as mais diferentes dobraduras de papel (origamis) que interagem entre si, para espanto e admiração das pessoas em volta.

As construções de cenário, como estátuas de budas gigantes cobertos pela areia, ou até o alto mar e suas ondas, são construídos por mecanismos reais. O resultado é como se as páginas de um livro infantil com textura se abrissem com uma riqueza de detalhes, além das luzes e cores diferentes a cada passagem da história. As próprias expressões dos personagens impressionam pelo realismo e pela humanidade.

A história é escrita por Marc Haimes, Shannon Tindle e Chris Butler, e é impressionante que eles não tenham se inspirado em nenhuma lenda oriental específica. Quer dizer, com certeza vários elementos da história possuem como fonte de inspiração o espírito oriental de outras lendas, mas esta é uma história original, que possui uma estrutura simples, mas eficiente para o que dispoe: usar a narrativa para uma viagem de aventura e descoberta.

E embora haja o pequeno problema de não haver muita tensão nas cenas mais movimentadas, mesmo que vejamos, por exemplo, batalhas na água (em um navio e no fundo do mar), esta não é necessariamente uma história focada em ação, mas muito mais reflexão. Uma reflexão sobre as perdas de entes queridos, acreditar em si mesmo, blá blá blá. E mesmo a moral da história não é tão completa assim.

Por fim, Kubo existe realmente para demonstrar como as técnicas de animação estão cada vez mais eficientes, sejam stop motion ou não. É um prazer saber que o estúdio responsável por Boxtrolls e Coraline permaneça com um de seus pés no stop motion. Ele é o equivalente aos live actions que preferem usar algo mais real para que o efeito não seja apenas um monte de pixels se cruzando.

★★★★☆ Kubo and the Two Strings. USA. 2016. Direção: Travis Knight. Roteiro: Marc Haimes, Chris Butler, Shannon Tindle. Elenco: Charlize Theron (Monkey), Art Parkinson (Kubo), Ralph Fiennes (Moon King), George Takei (Hosato), Cary-Hiroyuki Tagawa (Hashi), Brenda Vaccaro (Kameyo), Rooney Mara (The Sisters), Matthew McConaughey (Beetle), Meyrick Murphy (Mari). Edição: Christopher Murrie. Fotografia: Frank Passingham. Trilha Sonora: Dario Marianelli. Duração: 101. Aspecto: 2.35 : 1. Animation. #popcorntime #oscar2017