Kung-Fusão

Após uma revisita ao filme-gêmeo de Shaolin Soccer, ambos exploram esse conceito do Kung-fu extrapolado ao cotidiano, a sensação é de um frescor de ingenuidade e violência comparados a Kick Ass (e não me admiraria que este fosse inspirado naquele). Só pelo fato da violência existir com mortes e essas mortes serem relevantes para estabelecer o peso da tensão em um filme que obviamente é uma comédia já mereceria créditos de sobra.

Depois de assistir À Família — uma tentativa de brincar com humor em um filme de gângsteres — fica óbvio o que Luc Besson faz de errado e o diretor Stephen Chow realiza com pontaria certeira em Kung-Fusão: os gângsteres são desonestos e violentos como em um drama, mas diferente de um, suas vítimas são tão violentas quanto. Da mesma forma com que Yun e Yang se complementam, a força malévola dirigida ao pobre vilarejo se volta na mesma proporção contra seus malfeitores.

Mas havia falado de ingenuidade, e esse que pode ser o ponto fraco nas cenas que exploram a relação do herói com a menina que havia salvo quando crianças. De qualquer forma, a entrega é cinematográfica, com direito a mudanças sutis no movimento, na fala e nas transições elegantes e lúdicas entre um pirulito desenhado em sangue e um doce/coração despedaçados. Esse lirismo parece não caber nesse filme, mas quando ocorre, é de parar a mais frenética cena de ação.

Por fim, as habilidades crescentes dos opositores ligam tudo junto em um manifesto pró-kung fu que possui seus deslizes, mas em sua alma, mantém sua grandeza intacta.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-10-06 imdb