La La Land: Cantando Estações
Wanderley Caloni, 2017-01-27

Existe uma aura de saudosismo misturado com melancolia que cobre Hollywood. Junto dela os sentimentos mais exagerados no Cinema são celebrados em La La Land, que constrói, sim, mais uma homenagem à Sétima Arte (e aos musicais), mas ao mesmo tempo não para por aí. O seu sentimento de que há algo especial nisso tudo que merece ser preservado se une com a ideia ambiciosa de que é justamente a mudança que preserva os fundamentos que tornam o Cinema tão especial. Hipócrita em ser mais um filme de clichês, ele entrega o que pode de coração aberto e espírito leve, conquistando primeiro os mais fanáticos, para depois os cinéfilos mais “exigentes” com um produto metalinguístico de primeira qualidade ao brincar de maneira inequívoca com os nossos conceitos de espectador sobre o que é ficção e o que é realidade.

Se essa descrição inicial ficou por demais técnica e filosófica, não se preocupe. Este está longe de ser um filme complicado. Ele é um simples romance entre duas pessoas que cantam uma música juntos e se apaixonam. Mas esqueça os musicais completos, cheios de números. Este é um bem econômico, que só usa o artificio de personagens saírem cantando quando precisam, como na sequência inicial onde todos os motoristas presos em um engarrafamento clássico de Los Angeles se levantam e realizam um número cafona pelo bem do que o filme pretende fazer.

Aliás, esse filme é uma coletânea de sequência que não estão aí para impressionar, mas como um mecanismo de linguagem. Sabemos que o filme trata de musicais – cinematográficos ou não – e a fluidez na tela vale o esforço. Temos pelo menos um momento sublime,na cena final, que se aproveita da técnica para nos entregar um sonho que se confunde com as possibilidades infinitas da realidade. E há uma cena igualmente memorável onde a câmera desliza em volta de uma compenetrada Emma Stone, cantando do coração.

Ryan Gosling também canta, mal e porcamente. Mas este é seu personagem, distraído com a vida real e ligeiramente deslocado desta. Ele nunca entende o que as pessoas dizem, preferindo ouvir sua versão interna. Ele é o espectador sendo enganado pelas trucagens do cinema, preferindo acreditar na ilusão de que um dia ele abrirá seu clube de jazz e todos os problemas que a arte possui hoje em continuar existindo desaparecerá.

Emma Stone está cada vez mais uma versão feminina de Tom Hanks. Versátil e boa menina, ela não consegue, contudo, inspirar simpatia. Ela é antipática por princípio, está em sua personalidade mais intrínseca. No entanto, ela se esforça em entregar uma moça real, que, como sempre, engasga em suas próprias palavras, ri de repente e sem ritmo engolindo seu choro de menina mimada (mas pobre).

Mas, voltando a tecnicidades, a fotografia. Ela é a chave para entender o que está acontecendo. Cores básicas – azul, amarelo, verde e um toque de vermelho – desfilam pelas cenas, demonstrando como a luz em todo o filme é artificial, de estúdio, e por isso mesmo romantizada, que se esconde quando precisa dar foco a um personagem específico, emulando o foco em um filme onde tudo praticamente tem foco. A chave para o filme também está no asfalto. Quando seco, estamos em estúdio, pois a luz é controlada, certinha, dispensando a técnica do pós-chuva (note como toda cena externa de todo filme à noite precisa molhar seu asfalto para ter mais luz). Aliada do asfalto, vale citar, é a gritante cortina verde do casal, remetendo a Um Corpo que Cai e esse jogo entre realidade e fantasia.

Já quando o asfalto está molhado, no engarrafamento real de L.A., as pessoas são reais, a situação é verdadeira. Apenas um certo clube de jazz exibe o azul neon que remete ao vestido de Stone quando eles se encontram. E nesse momento há um plot twist premeditado pelo espectador desde a primeira cena. Onde a óbvia artificialidade da realidade da ficção que havíamos visto é uma fachada poética para a inversão de papéis entre a arte e a vida real.

E, nesse momento, por favor, esqueça a trama. Não há nada mais emocionante em um filme-homenagem do que nos fazer confundir realidade com arte. Pois a arte inspira dias melhores em nossa vida real.

★★★★☆ La La Land. USA. 2016. Direção: Damien Chazelle. Roteiro: Damien Chazelle. Elenco: Ryan Gosling (Sebastian), Emma Stone (Mia), Amiée Conn (Famous Actress), Terry Walters (Linda), Thom Shelton (Coffee Spiller), Cinda Adams (Casting Director), Callie Hernandez (Tracy), Jessica Rothe (Alexis), Sonoya Mizuno (Caitlin). Edição: Tom Cross. Fotografia: Linus Sandgren. Trilha Sonora: Justin Hurwitz. Duração: 128. Aspecto: 2.55 : 1. Comedy. #cinema #oscar2017 #revisita