Laços Humanos

Wanderley Caloni, October 27, 2011

É até sacanagem querer escrever um pouco sobre Laços Humanos, trabalho impecável de Elia Kazan (que, acabei de descobrir, é seu primeiro longa!). De certa forma, não parece correto apontar virtudes técnicas em um filme que fale direto com o coração. Não é raro para mim assistir filmes que me faça lacrimejar compulsivamente uma ou duas vezes durante a sessão, mas nesse caso o filme inteiro tem algo de mágico e esperançoso, que deixa o espectador com o coração apertado boa parte do tempo.

Só que as coisas não são tão simples. Ao mesmo tempo que transborda esperança e sonhos no aspecto de alguns personagens, o filme consegue atingir de maneira muito mais sutil a crueldade, o realismo e muitas vezes a ironia na mesma cena. Tudo isso fruto talvez da visão de Kazan (ajudado pelo excelente roteiro da dupla Tess Slesinger e Frank Davis), que pode ser acusado de pessimista, mas nunca de ter feito um filme sem emoções.

Essas não faltam. Seus personagens são exacerbados. A filha é doce demais, e a interpretação da atriz a faz parecer um anjo que caiu na terra. Só que por ser dessa forma torna mais evidente que ela representa nós mesmos e nosso otimismo exagerado na vida (assim como seu pai). Por outro lado, um triste lado, da mesma forma também nos vemos refletidos na mãe (e quem nunca zombou dos sonhos dos outros, ou acordou as pessoas para a “dura realidade da vida”?). Em escala menor, temos sua irmã e o policial como guias morais, ambos também presentes nessa complexa formação que é o ser humano. Tudo reflete no espectador, que acompanha entorpecido os diálogos lindos, mas utópicos, de um lado, mas concorda com a visão sensata, ainda que dura (e muitas vezes cruel), de outro. Todo esse caldeirão de emoções é cozinhado de maneira que possamos sentir todos os aspectos emocionais da história nos quase ao mesmo tempo, o que nos ajuda a entender a função primordial de cada personagem e, em uma camada psicológica, a função de cada emoção refletida em nós mesmos.

E para “mexer bem esse caldeirão” a direção consciente de Kazan busca unir os quadros da forma mais arrastada possível, com cortes e transições rápidas, quase sempre munido de diálogos rápidos e afiados, tão cheios de significado que encheriam um livro sobre as implicações filosóficas de cada um deles.

Ao mesmo tempo, se analisarmos o filme do ponto de vista histórico, Kazan pinta um panorama preciso, mistura de lúdico com trágico, dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra. Lúdico, pois usa na maioria das vezes as crianças e suas ações para dar uma espiada em como a sociedade se comportava à época da guerra e da depressão, uma época com grande aperto monetário e famílias lutando para sobreviver. Analisando sob esse aspecto, e sabendo que as pessoas tendem a criar seus mitos e suas ilusões (apenas para se sentirem bem) exatamente nessas épocas difíceis, o filme acaba sendo o eco de si mesmo, ou “que tipo de filmes as pessoas que viveram essa data gostariam de ver”.

Ainda que use crianças quase sempre, há uma bela sequência que gira em torno de um poste a uma certa altura e se aproxima da esperançosa filha lendo o livro sugerido pela bibliotecária, para tornar seu sábado menos doloroso com a leitura de Agonia da Melancolia, pois a menina insiste em ler todos os livros da biblioteca em ordem alfabética, pois deseja reter “todo o conhecimento do mundo”.

Porém, é preciso notar que o roteiro nunca parte para o maniqueísmo do choro fácil, o que no caso seria apenas questão de simplificar a história. Não. O roteiro insiste em tomar o caminho completo, complexo da psique humana, nem que para isso tenha que ferir o espectador (mas, ei, a família do filme sofre infinitamente mais, então é até covardia nos compararmos aos personagens desse drama).

O final, que também aparentemente leva o caminho fácil quando na verdade está usando da praticidade e até da realidade plausível, entrega de bandeja a conclusão inteligente de que, sejamos otimistas ou pessimistas, basta vivermos com o nosso melhor, que a vida fará o resto para nos ajudar.

E eu até gostaria de terminar este texto com uma das muitas frases memoráveis do filme, mas é tarefa ingrata escolher entre tantos exemplos tão ricos quanto cada cena cuidadosamente planejada desse clássico precoce de Elia Kazan.

Imagens e créditos no IMDB.
Laços Humanos ● Laços Humanos. A Tree Grows in Brooklyn (USA, 1945). Dirigido por Elia Kazan. Escrito por Tess Slesinger, Frank Davis, Betty Smith, Anita Loos. Com Dorothy McGuire, Joan Blondell, James Dunn, Lloyd Nolan, James Gleason, Ted Donaldson, Peggy Ann Garner, Ruth Nelson, John Alexander. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-10-27. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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