Ladrões de Bicicletas

Ladrões de Bicicletas é um filme curto (menos de uma hora e meia) e antigo (da década de 40) e italiano. Porém, apesar dele ser curto ele é completo, apesar dele ser antigo ele é atual, e apesar dele ser italiano ele é, felizmente ou infelizmente, universal. Para os que se interessam por bobagens, foi um dos primeiros longa-metragens a ganhar um Oscar de Filme Estrangeiro, um título que não existia e era dado de vez em quando pela academia. Para os que se interessam pelo Cinema como arte, este filme virou um dos exemplos mais conhecidos do neo-realismo italiano, um estilo de fazer filmes que buscava refletir a realidade social da época, sendo filmado quase como um documentário. Tanto que os personagens não são nada especiais, podendo ser qualquer um na megalópole italiana naquela época pós-guerra.

Aqui sabemos da história de Antonio (Lamberto Maggiorani), um pai de família que em tempos difíceis consegue um emprego que exige que ele use bicicleta: pendurar cartazes pela cidade. Tendo penhorado a magrela, ele pede ajuda a sua esposa, e o casal penhora os lençóis para conseguir o agora equipamento de trabalho de Antonio de volta. Como o título já denuncia, a bicicleta é roubada – e mesmo assim, a sensação de insegurança no filme é instaurada em um ou dois momentos preciosos de criação de atmosfera. Desesperado, vai pedir ajuda a um amigo, e no dia seguinte, um domingo, vão todos procurar o objeto roubado em uma feira que parece ter sido montada exatamente para esse mercado de bicicletas de “terceira mão”.

A direção de Vittorio De Sica com seus enquadramentos irretocáveis e nostálgicos na maioria das vezes, e a trilha sonora de Alessandro Cicognini, que toda constantemente praticamente sem pausa, força a emoção, mas sem sucesso: até a tristeza é escassa naquele universo. O drama já está montado há muito tempo atrás. Não pelos personagens, mas por todas as centenas (milhares? milhões?) de pessoas que vemos andando pelas ruas de Roma. A pobreza vira um mero detalhe frente à realidade de não poder conseguir a dignidade de ter um emprego, e logo no começo vemos uma multidão procurando por um (onde apenas Antonio é chamado, já desesperançado do outro lado da rua).

Não, não é preciso forçar nada, pois aos poucos percebemos um drama mais universal até do que de todas aquelas pessoas. É uma questão moral que está corrompendo aquela sociedade. É uma ideologia falida (não importa qual), um pesadelo com os olhos abertos. Talvez seja o resultado de uma crise material que gere a espiritual. É por isso que todas aquelas pessoas vão à missa: para comer (e ter sua barba feita).

A caçada que Antonio e seu filho fazem pelas ruas da cidade é um mero contratempo para que olhemos em volta e consigamos constatar com nossos próprios olhos. Quando Antonio encontra o ladrão, então, o óbvio pula do nosso cérebro, em um beco esquecido por aquele turbilhão de acontecimentos: os valores morais já estão invertidos há muito tempo. O mal já venceu há muito tempo, se esquecendo apenas de anunciar. É hora de mudar?

E é com isso, com esse pressentimento, que o terceiro ato, infalível, ganha todo o seu peso. Um novo turbilhão emotivo se configura – esse em muito menos tempo – em uma decisão desesperada de um pai, e com direito ao testemunho do seu filho. A felicidade que antes sentiam ao sentar no restaurante forma a antítese exata da vergonha e da humilhação que o vemos sentir aparentemente alguns minutos depois. Quando este desaba, desabamos juntos. Estamos exauridos. Não há forças para continuar. Que bela maneira de sintetizar uma mensagem.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-06-18 imdb