Lady Bird: A Hora de Voar

De uma beleza inocente. Lady Bird é daqueles filmes que faz muita gente pensar por que foi indicada a Oscar. Não há surpresa. Este é aquele filme que entra pela categoria atuações, independente e com uma boa ideia revigorada. Todo Oscar tem um ou outro filme com esse aspecto. E Lady Bird é o escolhido desse ano.

Nesse caso acompanhamos o processo de maturidade de uma menina em seus pré-18. Ela tem uma amiga gordinha e não é preciso dizer mais nada sobre elas não serem populares. Mas diferente do drama irritante de obras que seguem o clichê “menina que aprende o valor da amizade”, este filme mostra tudo meio junto. Os conflitos de uma adolescente não podem ser minimizados nem exagerados. Este filme dá o ponto certo de realismo.

Ela mora na cidadezinha perto da costa Oeste americana que ninguém lembra (Sacramento) e estuda em um colégio de freiras. Mas esta não é uma história que mete o pau na religião. Antes ela demonstra como para cada um há uma verdade única, que vamos aprendendo em nossas vidas se tivermos a chance ou a sorte. A menina protagonista parece não dizer frases brilhantes, mas em seus movimentos capturamos sua genialidade adolescente, se é que podemos usar essa expressão. No processo de crescimento ela arrisca e aprende sobre a vida, quase como um mecanismo duplo de um guia informal de como viver nessa fase.

No processo ela recebe alguns ensinamentos que muitos de nós não enxergávamos na época, ou passávamos batido. Como aprender que seu pai tem depressão há anos, mas não vai aborrecer sua filha por causa disso. Ou que o irmão se preocupa com ela, apesar de ambos parecerem de outro planeta. Ou que a mãe tem um grande coração, mas que apesar disso ou por causa disso ela é bombardeada todos os dias sobre como são pobres e como é importante, quase vital, saber viver com esse status.

Mas esse também não é um filme sobre como os jovens sofrem sem ter oportunidade de estudar onde desejam. Ele entende que pensar assim é ser infantil. Ele prefere mostrar a hipocrisia dos jovens que dizem não se importar com dinheiro quando seus pais lhe provém com tudo, ou como tudo isso é invisível para os que nunca tiveram necessidades. Seu lado mais poderoso, aliás, é demonstrar que ter tudo não é resposta para uma vida significativa. Tudo que ela queria era um pouco menos de realismo. É dela: “parece que todos são especialistas em me dar uma visão realista do meu futuro”.

E neste sentido, “Lady Bird” arrasa. Ele te esfrega aos poucos uma dose de vida real. Está na ótima interpretação de Laurie Metcalf como a mãe que não mede esforços para cuidar da filha, mas sacrifica no processo seu carisma e sua amizade. Só vemos o lado ruim de ser uma mãe, mas a personagem de Metcalf parece que de fato só vê isso, assim como Bird. Enquanto isso a filha, diferente de outros filmes, parece realmente ter 17 anos. A pós-criança construída por Saoirse Ronan, do ótimo Brooklin, não tem os hormônios a atacando todo momento. Ou pelo menos não sentimos isso. Ela não é expressiva, mas talvez sua realidade seja ligeiramente aumentada. Nunca saberemos pelo olhar da diretora.

A atriz Greta Gerwig dirige aqui seu segundo longa, mas já está habituada no roteiro (que ela também assina). Aplicando tomadas curtas que se sucedem em cortes secos, a beleza do roteiro e da direção de Gerwig é saber cortar cedo e onde colocar sua câmera para nos deixar de camarote para assistir todos os acontecimentos de pertinho. Nos vemos como a adolescente e a crise que esta passa para conseguir viver tendo um pouco de esperança no futuro.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-03-13. Lady Bird: A Hora de Voar. imdb