Lady Snowblood

Originalmente um mangá da década de 70, Lady Snowblood (sem título nacional, provavelmente nunca lançado no Brasil) contém uma verdadeira miscelânea que com certeza foi fonte de inspiração de Quentin Tarantino na confecção de sua Noiva em Kill Bill. Fica até difícil listar todos os tipos de influências, referências e cópia descarada (como a música-tema). Porém, diferente de um plágio barato, ambos são trabalhos impecáveis de composição, e hoje em dia emprestam diversos significados um ao outro, formando uma perfeita sessão dupla (ou tripla, se considerarmos que Kill Bill possui dois “volumes”).

Tendo por tema central a vingança, representada pela figura de Yuki Kashima (Meiko Kaji), uma jovem espadachim que assumiu a vingança de sua família, destroçada por um grupo de assassinos, o vermelho é marca registrada da morte e presente em toda a história. Porém, branco e vermelho trabalham juntos para encontrar os assassinos um a um e completar sua missão.

Aqui o uso do vermelho e branco é o que une o instinto de vingança da heroína e nos permite enxergarmos a violência de uma forma mais gráfica e ao mesmo tempo cartunesca (além de servir de mensagem temática — sua família é morta por usar branco). O uso exagerado de closes, zooms rápidos e profundidade de campo, traços da época dos filmes de artes marciais, é aplicado de forma sistemática, servindo com o propósito de abrandar as cenas mais fortes, mas ao mesmo tempo exaltar seu significado subliminar na história. (Também é importante ter em mente que os vilões e impuros usam uma cor acizentada.)

Encontrando no caminho com Ryûrei Ashio (Toshio Kurosawa), um jornalista que se interessa por sua história, seu jornal passa a narrar suas aventuras e chamar a atenção do povo local. Os desenhos mostram de forma monocromática o que já vimos em vermelho, uma maneira — diga-se de passagem — muito mais orgânica de inserir a arte gráfica oriental do que a utilizada pelo próprio Kill Bill (assim como os capítulos que dividem o filme, que aqui possuem a desculpa do estilo narrativo da história já escrita). E por falar em comparações é preciso que se ressalte a bomba de fumaça vermelha utilizada em uma cena particularmente tensa, um artifício muito mais elegante que o apagar súbito das luzes no filme de Tarantino, sem explicação plausível a não ser tornar a cena na contraluz mais bonita esteticamente. De certa maneira a metalinguagem em Snowblood também se beneficia por já estarmos inseridos na cultura japonesa. O quatro, por exemplo, número de inimigos de Yuki, também representa a morte.

A montagem, minimalista nas cenas de luta, consegue expressar a violência sem mostrá-la com todos os detalhes sádicos. Basta a sugestão do movimento (ajudada pela câmera e seu enquadramento eficiente) aliada a uma edição de som igualmente competente para ilustrar a agonia dos combatentes, o que também acaba por ilustrar os resultados da vingança. A mixagem de som também sabe atribuir o valor do silêncio, e é por isso que ele se torna vital em dois momentos finais decisivos. Fora a competência técnica e narrativa de uma história que do contrário seria mais uma, o pano de fundo de Snowblood se passa em uma época de ascenção da nação japonesa frente à guerra com os chineses, e a evolução do uso das armas de fogo, onde ganham cada vez mais importância (e é por isso que os dois últimos inimigos a usam, por analogia os mais perigosos).

Da mesma forma, o destino final do inimigo maior de Yuki pode sugerir muitas coisas, como o sacrifício dos mais novos como uma consequência da ganância (é uma morte forçada, mas o filme a faz parecer necessária, e Snowblood não vacila porque sua própria família já havia sido sacrificada pela mesma ganância). O vermelho sempre tão presente nas cenas ao final dá lugar ao branco, sereno, mas que ao mesmo tempo possui o destino de desaparecer com a chegada do sol. Tantos símbolos é que tornam Lady SnowBlood tão fascinante, e que com certeza devem ter aberto os olhos do mestre Tarantino assim que o viu.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-03-09 imdb