Lawrence da Arábia

Nota: O filme que estou me referindo é a versão restaurada por Robert A. Harris com a supervisão do diretor David Lean, em 1989. Ela exclui alguns diálogos e, se formos considerar o tamanho da versão original, creio que podemos descartar as menores diferenças entre as duas. Além disso, essa versão também recebeu um tratamento de restauração para ser lançada em DVD em 2000 por Martin Scorsese e Steven Spielberg. Scorsese, como se sabe, é um ávido militante pela restauração de obras clássicas do Cinema e mantém um acervo digital inestimável.

Em primeiro lugar, não se assuste com a metragem desse filme. Uma orquestra inicial sem imagens, um intervalo (também com trilha sem imagens) e um final semelhante compõem cerca de 3 horas e três quartos de hora de projeção. Porém, há um imenso hiato no tempo histórico que é demonstrado com perfeição em seu ritmo, sem contar o hiato emocional que o protagonista vive. Por conta disso e das inúmeras cenas de batalhas e discussões militares que vão em um crescendo constante, o resultado final é uma história compacta para momentos importantes demais na história do mundo, um épico se criando em cima de fatos históricos romantizados em torno de um herói tão carismático quanto enigmático.

Peter O’Toole é o ator em total destaque como Thomas Edward Lawrence, um arqueólogo, oficial militar e diplomata britânico, que de fato existiu. Porém, mais importante, Lawrence protagonizou os movimentos que culminaram na Revolta Árabe em plena Primeira Grande Guerra. A performance de O’Toole está no mínimo à altura dos feitos da figura histórica, e sua romantização cria um dos personagens mais fascinantes da história do Cinema.

Além disso, ele é auxiliado por um batalhão de estrelas propícias para o desafio de encarnarem figuras históricas que ajudaram a enriquecer o filme em termos de dramatização: Alec Guinness como Príncipe Feisal, Anthony Quinn como o enérgico e divertido Auda Abu Tayi, líder da tribo dos Howeitat, Jack Hawkins como o polivalente General Allenby, Omar Sharif como o xerife Ali, braço-direito do Príncipe e melhor amigo de Lawrence. Todos contribuem para o crescimento emocional da experiência de estar entre as tribos árabes do primeiro quarto do século 20, lutando contra a supremacia Turca em territórios quase que inabitados, em desertos sem fim.

Porém, mais do que isso, é preciso ressaltar a gigantesca trilha sonora de Maurice Jarre, que repete seu tema infinitamente, e mesmo assim é única de tantas formas distintas. Sub-temas são criados no decorrer da narrativa, e logo percebemos que o conjunto emocional da obra é indissociável dos momentos em que a trilha acompanha cada momento da história. Se torna aos poucos um hino, não só da experiência árabe de Lawrence, mas de toda experiência de guerra e como ela desumaniza o homem.

Também é necessário ressaltar a fotografia de Freddie Young, e cujo resultado atual não deve fazer justiça ao feito da época. A restauração deixa algumas cenas pouco coerentes, mas talvez o resultado hoje tenha se transformado quase em um documentário de uma época remota, e portanto ainda tem seu valor artístico.

Lawrence da Arábia é um filme que trata de emoções humanas dentro da guerra, da história maior que homens, e dentro do jogo sujo político. O filme adentra de maneira universal nos sentimentos, mas está bem localizado no tempo e espaço. Aos poucos entendemos o funcionamento das tribos árabes àquela época, e isso é vital para acompanharmos a evolução da campanha britânica naquele solo desértico, a resistência turca e a função de Lawrence em unir o povo árabe em torno de um objetivo comum, mesmo que para Lawrence, e portanto, para nós, nunca pareça haver um objetivo traçado em sua mente. Ele vai aos poucos se desdobrando, mas nunca conseguimos antever o que acontecerá em seguida, porque o personagem é por demais enigmático, e cada novo desfecho desfere resultados catárticos em sua persona.

Dirigido por David Lean como um épico grandioso, esqueça a digitalização de exércitos impossivelmente grandes, como em Senhor dos Anéis. Aqui tudo é feito como nos velhos tempos, porque estamos nos velhos tempos: dezenas a centenas de extras compõem um cenário de batalha em pleno deserto, montando camelos e cavalos, disparando bombas, erguendo espadas, e vestindo um figurino impecavelmente articulado da época e da região.

Lawrence da Arábia parte de uma história simples que se desenrola em texturas complexas a respeito da essência humana em frente ao horror da guerra. Estabelece seus vilões mais como a situação do momento do que aquelas pessoas confortavelmente alojadas, jogando squash e bilhar, e evitando tomar a responsabilidade de ações que ainda não se desdobraram. É um exemplar raro de roteiro de filme de guerra que consegue trabalhar tanto nos níveis macro quanto nos mais íntimos. É a guerra interna que a humanidade anseia por desenvolver horrivelmente no século 20.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-01-18. Lawrence da Arábia. Lawrence of Arabia (UK, 1962). Dirigido por David Lean. Escrito por T.E. Lawrence, Robert Bolt, Michael Wilson. Com Peter O'Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy. imdb