Lazzaro Felice

Wanderley Caloni, December 18, 2018

Este é daqueles filmes que as pessoas assistem e saem um pouco confusas, sem saber direito se entenderam e se gostaram. Mas a boa notícia é que não é necessário desvendar completamente esta pérola para se aproveitar dos momentos dramáticos, cômicos e absurdos deste primeiro longa de ficção da diretora/roteirista Alice Rohrwacher, que ganhou Cannes como melhor roteiro. Sua história é simples o suficiente e seu protagonista cativante o suficiente para que essa fábula se construa como uma ponte entre o divino e o profano.

O profano começa a ser contado quase que de forma surreal. Se trata de uma fazenda onde seus empregados são proibidos de sair. Mantidos em cativeiro através de dívidas que vão acumulando mês a mês, não é preciso ser nenhum gênio para perceber desde o começo que há uma relação de escravidão entre esses camponeses e sua “dona”, a Marquesa de Luna. O absurdo da situação é que isso está ocorrendo em uma época em que já existem celulares (ainda que os primeiros).

Também não é preciso ser um gênio para entender que Lazzaro é o santo entre essas pessoas. Ele sequer se importa em não beber o pouco álcool que têm para comemorar a união de um casal, que espera sair daquele lugar para tentar a sorte no mundo. Lazzaro é um jovem despido de qualquer ambição. Ele faz exatamente o que as pessoas lhe mandam fazer, e faz até quando não mandam. Disposto a estar sempre cuidando do próximo, fica difícil ter raiva desse rapaz, mesmo ele sendo meio bobo.

Isso porque a atuação de Adriano Tardiolo é sincera demais para enxergarmos qualquer sombra de incômodo. Seu olhar é transparente, seu rosto sempre amigo. Acreditamos de verdade que ele não quer o mal de ninguém, embora no processo ele praticamente se anule. Mas este não é um filme sobre o individualismo, mas sobre o divino católico, praticamente, embora não haja aqui uma presença muito forte da liturgia (apenas a figura muito vaga dos santos e como eles viveram suas vidas).

O filme é dividido em duas metades, e algo surpreendente ocorre bem no meio. É preciso que você assista para sentir o impacto, e eu não posso falar muito sobre a segunda metade. Exceto que ela avança no tempo e estamos já às voltas com refugiados, bancos malvadões, etc. Agora não existe mais escravidão. Bom, essa frase é verdadeira, mas não de acordo com os valores do filme, que tenta fazer um paralelo entre a escravidão do interior e a miséria nas grandes cidades, e entre imigrantes ilegais e os cristãos clássicos. Sim, é bem farofa se for pensar.

Importante notar que em ambos os momentos do filme Hélène Louvart utiliza uma palheta cinzenta que torna tudo realista através de uma fotografia profana, comum. Essa sensação é aumentada pela diretora Alice Rohrwacher ao fazer questão de mostrar os contornos arredondados de sua câmera, como uma forma de documentar sua ficção. Estilo ou não, funciona, pois os frequentes defeitos que vemos nesse enquadro acaba soando realista, e os planos que Louvart concebe são sempre desprovidos de charme. Se trata de pessoas andando pra lá e pra cá, da direita para a esquerda. O que eu quero dizer é que não há nenhuma tentativa da cineasta em glorificar os acontecimentos simples daquelas pessoas. Elas estão em pé de igualdade do pai em Ladrões de Bicicleta ao serem pessoas comum tentando sobreviver como podem.

A mensagem divina do filme passa dos limites no quesito bondade. Todos os pobres do filme, nobres ou não, são oprimidos (embora os nobres também sejam opressores), e são excepcionalmente bons mesmo assim. É por um motivo. O filme precisa colocar em nossa mente essa atmosfera cristã clássica, onde os humildes herdarão os céus não por passarem necessidade, mas por mesmo passando necessidade serem íntegros e bons. E quando digo íntegros estou incluindo mesmo os momentos em que eles roubam e enganam pessoas para sobreviver. Se isso parece contraditório a mensagem cristã possui tantas contradições quanto, mas esta não é exclusivdade das religiões tradicionais, já que a visão atual de oprimido pode perdoar e glorificar até mesmo os piores bandidos da sociedade.

A grande virtude de “Lazzaro Felice” para o Cinema é que se trata de uma história que consegue unir de maneira orgânica diferentes visões e crenças sobre a realidade que nos cerca. Ele brinca com o conceito de divino e profano dentro da realidade que estamos acostumados, e se aproveita de um momento sobrenatural para nos fazer pensar sobre como a sociedade pode ser cega para milagres. É um filme pessimista, e imoral, mas ele o é da maneira mais autêntica possível.

Imagens e créditos no IMDB.
Lazzaro Felice ● Lazzaro Felice, aka Happy as Lazzaro. Itália, Suíça, França, Alemanha, 2018. Escrito e dirigido por Alice Rohrwacher. Com Adriano Tardiolo como Lazzaro, fotografia por Hélène Louvart, elenco por Ulrike Müller e Chiara Polizzi. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2018-12-18. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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