Life Itself

Life Itself é uma experiência divertida e monótona ao mesmo tempo. Divertida porque acompanhamos a vida de Rober Ebert – um dos críticos mais famosos e conceituados no mundo, falecido em 2013 – desde quando começou a escrever. E o sujeito era um… como dizer isso sem soar xulo? Porra-loca. Estava sempre no bar, saía com mulheres não-convencionais na maioria das vezes, e virou um alcóolatra crônico. Ou seja: o estereótipo de um escritor bem-sucedido.

A parte monótona são as inúmeras tentativas, na maioria das vezes frustradas, do diretor Steve James tentar entender a partir de testemunhos de seus amigos, conhecidos e colegas de serviço quem era o profissional Roger Ebert. Sem ter um roteiro definido, Steve começa a filmar quando Ebert já está internado pela sexta vez em decorrências de complicações do tratamento de um câncer. Sabemos que não há muito tempo, então a câmera apressadamente dá seus pulos para o passado, mas logo volta para o iminente presente e suas consequências. A impressão geral é a de que não faz sentido um filme sobre um crítico de Cinema, e que agora é tarde demais.

Por que não faz sentido um filme sobre um crítico? Porque críticos no mundo real são irrelevantes. Tudo o que poderíamos sugar da mentalidade de um crítico está em suas palavras já ditas ou escritas. Acompanhamos pequenas passagens de seu livro auto-biográfico que dá nome ao filme e pequenas passagens em suas críticas dos filmes mais conhecidos. Vemos o crítico na televisão com seu companheiro de longa data – também crítico – Gene Siskel. Juntos eles conseguiram popularizar a crítica cinematográfica nos mesmos moldes da lendária Pauline Kael (embora Kael, na visão do documentário, e apesar de seus textos fluidos e de fácil assimilação, fosse articulada demais para se auto-denominar popular). Claro, televisão aberta é a coisa mais popular onde poderemos encontrar dois críticos de Cinema falando das estreias da semana. O fato de ambos serem dois dos melhores críticos norte-americanos ressalta o enorme abismo entre arte e entretenimento que os dois tentaram diminuir por duas décadas.

O que é fascinante em Life Itself é perceber as tentativas de Ebert em se aproximar da sétima arte e aproximá-la do público e dos próprios artistas. Dessa forma o vemos formando laços de amizades com cineastas conhecidos e amadores (incluindo um certo Martin Scorsese), realizando eventos onde as pessoas iam assistir filmes para analisá-los quadro-a-quadro e, por fim, escrevendo um blogue freneticamente em seus últimos anos de vida.

Aliás, um blogue é o sinal de que os tempos estão mudando mais uma vez. Se beneficiando imensamente do seu terceiro ato impecável, o documentário expõe a construção do novo saite Roger Ebert.com e a criação de uma equipe de colaboradores que irá manter viva a imagem das dezenas de críticas que eram publicadas por mês pelo próprio Ebert por muito tempo. A popularização da conversa sobre filmes na blogosfera é o que me trás a escrever em meu próprio blogue. A cada dia mais pessoas contribuem para aumentar esse coro que deseja muito mais do que “se sentir bem com um filme”. Queremos esmiuçar do que ele é feito, como é possível que obras se mantenham novas ainda depois de séculos de existência. O que há do outro lado? Talvez a história de um velho crítico não seja de fato muito relevante, mas sim a história do que a crítica por ele construída gerou ao redor do mundo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-03-22. Life Itself. Life Itself (USA, 2014). Dirigido por Steve James. Com Martin Scorsese, Werner Herzog, Ava DuVernay, Roger Ebert, Errol Morris, Stephen Stanton, Ramin Bahrani, Steve James, Chaz Ebert. imdb