Liga da Justiça

2017/11/24

Há alguns bons minutos no começo de Liga da Justiça onde eu gostaria muito de voltar a ser criança e vibrar vendo Mulher Maravilha, Batman e Flash juntos! Esses bons minutos, no entanto, passam logo, e no lugar vemos exatamente 120 minutos de uma obra sem começo nem fim, visualmente e narrativamente confusa, barulhenta e com uma miscelânea de cores que não combinam muito bem juntas. A colagem de Mulher-Maravilha dentro de um cenário, ambos com cores bem díspares, é o que representa para mim a união entre milhões sendo gastos em uma produção que parece sempre barata demais.

Continuando a história vista em Batman Vs Superman (que já tinha o sub-título A Origem da Justiça, já entregando o ouro), Batman (Ben Affleck) resolve reunir uma galera de heróis porque uns monstros muito bizarros começam a aparecer em Gothan City, e ele teme por não ter super-poderes e não conseguir lidar com essa ameaça como seu amigo criptoniano faria. Para os que já assistiram e os que não assistiram ainda o filme anterior (spoiler alert!), saiba que Superman nesse momento da história está morto. E quando digo “nesse momento” me refiro à máxima de que não existe morto permanente em filmes de super-heróis que não possa ser revertido, como chegaremos a testemunhas antes da metade da projeção, ou no final de qualquer trailer desse filme.

A questão é que o diretor Zack Snyder precisa ter o time todo junto para conseguir mostrar como eles lutam tão bem quando estão juntos, embora cada um deles tenha objetivos diferentes. Para uni-los a história tem três cubos que eram guardados pelos três povos da Terra Média (ou algo assim), as Amazonas, os Molhados e os Seres Humanos. No grupo dos Molhados há o Aquaman. E para finalizar a equipe tem um rapaz que está se tornando andróide aos poucos. Pensei que ele fosse se tornar, ou seria responsável pelo surgimento, Brainiac, a IA de Krypton. Mas não, ele é apenas um rapaz aleatório negro para prencher cota. Com ele e com Flash piadista está completa (mais ou menos) uma trupe que pode servir como uma versão DC de Guardiões, X-Men, Vingadores ou qualquer outro dos inúmeros grupos criados pela Marvel.

Só que com as cores drenadas.

Zack Snyder volta novamente à direção depois de BvS e volta a fazer aquelas introduções com câmeras lentas, dessa vez explorando a intolerância contra imigrantes e a violência irracional que tomou conta do planeta depois que Superman se foi. A linha histórica aqui é meio vaga e as alegorias são meio óbvias. É também de Snyder a atualização de Diana, a Mulher-Maravilha, cuja bunda ainda não havíamos o prazer de testemunhar em planos-detalhes desde que seu filme solo dirigido por uma mulher e com tons feministas estreou. No filme solo é impossível ver este plano-detalhe. Agradeço à conhecida misoginia de Snyder (Sucker Punch, 300) por conseguir negociar um plano-detalhe lento com ela andando de calças e um ou dois momentos em que vemos usa minúscula saia por baixo.

Esta combinação de bons atores protagonizando uma história sem pé nem cabeça e com uma gostosa estilizada para completar o time é estranhamente coincidente com outro filme horrível: Esquadrão Suicida. Aparentemente as peças começam a se encaixar no universo DC. A lógica funciona mais ou menos assim: quando um grupo de heróis (ou “vilões”) se reúne para combater uma ameaça ainda virtual, ela se torna real graças a este mesmo grupo. Aqui a história não foi exatamente essa, mas ao escapar mais uma vez da fórmula clássica “vilão surge primeiro, equipe se forma depois” o filme de Snyder se confunde com o de David Ayer, criando um padrão-DC.

A parte mais triste deste filme é observar como os atores e personagens são até interessantes, mas eles estão inseridos em uma computação gráfica de muito mau gosto, protagonizando cenas de ação escuras, confusas e desnecessárias, e participando de uma história que não chama a atenção em nenhum momento. Quero dizer, o vilão precisa gritar toda hora para chamar a atenção para ele mesmo. E o que ele grita não faz sentido nenhum. “Eu sou a destruição do mundo!”. E bla bla bla. OK, uma motivação tão aleatória como esta não é sequer uma alegoria do terrorismo ou do capitalismo opressor, vilões da moda: é uma alegoria da estupidez (aparentemente o “herói” da moda).

A capacidade de fazer piadas com seus heróis tem crescido na Marvel, mas precisa de sérios ajustes no universo DC. O Flash interpretado por Ezra Miller não é um escape cômico, mas um escape idiota. A história é muito densa, cheia de subterfúgios irônicos e sarcásticos e dark para que exista qualquer sinal de esperança. Quanto mais de piadas. Praticamente nenhuma piada funciona, ou funciona no nível da risadinha.

Até Henry Cavill, um ótimo Homem de Aço, surge aqui estranhamente plastificado, em um resultado gráfico que lembra o ator Peter Crushing em Rogue One. Porém, Peter Crushing está morto. Ou seria essa mais uma alegoria?

Além disso, o universo criativo de Snyder, que também assina O Homem de Aço, é ligeiramente confusa e parece aos poucos se perder nas referências que tenta criar. Utilizando a mitologia alienígena para recriar o conceito de Superman diferente do visto com o ator Christopher Reeve, e recriando um novo tema para o super-herói, Snyder resolve voltar a tocar o tema icônico de John Williams em um momento deste longa, evocando ecos do passado ao mesmo tempo que evoca a eterna questão: que universo de super-heróis é este, afinal de contas?

Talvez ninguém ainda saiba. Experimentando conceitos até tentar acertar o ponto, Liga da Justiça termina como começou: mais um episódio narrativamente confuso que não leva a lugar algum e que finge ser algo tão interessante quanto o universo já estabelecido da Marvel. Talvez esse começo da Liga seja o exato momento para desfazê-la. E começar tudo de novo.

★★☆☆☆ Justice League. USA, 2017. Direction: Zack Snyder. Script: Chris Terrio. Joss Whedon. Zack Snyder. Jerry Siegel. Joe Shuster. Gardner Fox. Bob Kane. Bill Finger. William Moulton Marston. Cast: Ben Affleck (Batman / Bruce Wayne). Henry Cavill (Superman / Clark Kent). Amy Adams (Lois Lane). Gal Gadot (Wonder Woman / Diana Prince). Ezra Miller (The Flash / Barry Allen). Jason Momoa (Aquaman / Arthur Curry). Ray Fisher (Cyborg / Victor Stone). Jeremy Irons (Alfred). Diane Lane (Martha Kent). Edition: David Brenner. Richard Pearson. Martin Walsh. Cinematography: Fabian Wagner. Soundtrack: Danny Elfman. Runtime: 120. Ratio: 1.37 : 1. Gender: Action. Release: 15 November 2017. Category: movies Tags: cinema dceu

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