Lincoln

Talvez Spielberg tenha reverenciado demais a figura do presidente abolicionista. Mas quem poderá acusá-lo? Em uma época onde imperava os pensamentos que vemos do povo e dos seus dirigentes é admirável que o filme comece já com uma figura como ele, vindo do sul e com pensamentos simples e bem colocados, como chefe de estado de uma nação dividida.

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) encarna o personagem com uma igual reverência, mas para nós parece mais humano, mais frágil. Fica difícil entender como um velho de olhar e dizer vagaroso conseguia direcionar seus pensamentos e toda sua vontade por sua causa. Por outro lado, é com essa mesma fragilidade que Day-Lewis nos impressiona nos momentos “pulso-firme” do presidente. Mais difícil ainda para sua atuação é conseguir se sobressair a tantas atuações memoráveis, onde até Tommy Lee Jones ganha seu espaço (se fosse apontar uma única exceção seria Sally Field, obviamente desalinhada com a proposta de uma primeira dama amargurada).

A discussão da escravidão — tema central e presente em todo o momento — é colocada até as últimas consequências. Porém, diferente do bobinho Histórias Cruzadas, que investe no sentimentalismo barato, o jogo de poder e influência é o verdadeiro protagonista. A. Lincoln parece inofensivamente perigoso, mas consegue alterar seu humor para cada momento. É uma lenda para seu povo. Não esperaríamos nada menor. Mesmo assim, os diálogos e a questão maior da liberdade para todos os cidadãos é um objetivo que parece inalcançável até para um dos estadistas mais memoráveis da história americana.

E por isso Spielberg investe em tomadas sempre grandiosas, com muitos figurantes, construções e figurinos. Detalhe: sempre em movimento. Um trabalho de encher os olhos para um filme tão cheio de diálogos. A câmera costuma navegar em torno dos seus personagens, levemente, tendo aparentemente o único motivo de apresentar o cenário, uma reconstrução digna de ser vista na telona, com o mesmo capricho fotográfico do igualmente empolgante Na Estrada.

A trilha sonora acompanha a morosidade da evolução sobre a emenda que poderá vencer a guerra e acabar com a escravidão (e a economia) do sul. Porém, com todo o respeito a John Williams, a única que parece querer dizer de maneira mais expressiva o que está acontecendo é a fotografia, que encobre Lincoln de sombras dentro de sua casa, para apenas depois o vermos sob uma luz forte e renovadora. Não é nenhum segredo o que isso significa e por que acontece, mas continua sempre lindo de se ver.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-31. Lincoln. Lincoln (USA, 2012). Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Tony Kushner, Doris Kearns Goodwin. Com Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley. imdb