Lion: Uma Jornada Para Casa

Este é o filme indicado ao Oscar por fazer chorar. E por falar de um caso real, emocionante, e por falar sobre miséria e como os brancos são privilegiados. Se for um branco que fala inglês, então, nem se fala: a maioria do filme é falado em inglês.

E até por ser falado em inglês ele é selecionável para o Oscar.

Porém, esquecendo a parte emocionante da trama, o que dá mais gosto de ver em Lion é sua montagem. E a edição, já que a primeira metade realiza transições no tempo com uma facilidade que quase dispensa os letreiros. Mas a montagem, na segunda metade, consegue juntar a saudade e as memórias de Saroo com momentos imaginados por ele de quando deixou sua família. Aliás, deixou é eufemismo, pois o menino se perdeu e rodou o país de trem por dias. Sem condições de voltar e terminando em uma espécie de orfanato, é adotado por um casal de australianos.

A estrutura narrativa de Lion é muito simples de entender, e é para ser mesmo, já que sua maior força reside nos atores, e a atuação de Dev Patel é surpreendentemente coesa – mesmo não sendo o tipo de ator que saia da rotina – mas a maior descoberta é o pequeno Sunny Pawar (e o pequeno Saroo), que faz a alma do filme inteiro em sua primeira metade. E até Nicole Kidman tem seus bons momentos.

Mas, de qualquer forma, volto à montagem. O seu uso e os enquadramentos do diretor Garth Davis salvam o dia junto do editor Alexandre de Franceschi, pois transformam uma história que poderia ser até interessante, mas morosa, burocrática. Com uma câmera na mão, quase sempre focando os atores, e permitindo que apenas vejamos o cenários quando ele é relevante para a busca de Saroo, temos sua perspectiva como criança (fugindo à noite de adultos inescrupulosos) e como adulto, pois seu horizonte continua limitado por um verdadeiro muro de pedras.

Por fim, apresentando uma Rooney Mara de luxo como par romântico do protagonista – e sem muito o que fazer – Lion é um filme realmente de Oscar: empolgante, emocionante, e um drama da vida real. Uma história inacreditável que apenas por ser filmada já é digna de prêmios. Obrigado, Garth Davis, por tornar isso ainda um pouco mais.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-02-17 imdb