Livrando a Cara

Wanderley Caloni, May 29, 2019

É um romance lésbico. É uma cinquentona grávida. É uma novela chinesa em solo nova-iorquino. A cartilha é completa e espero no mínimo um casório e uma corrida para o aeroporto nos momentos finais. Paguei meu ingresso pra isso. Oh, não, eles refazem a cena da noiva entrando no ônibus daquele clássico com Dustin Hoffman. Por essa eu não esperava. Uma cena que faz sentido e seria genial colocada no filme que a diretora Alice We pensa que fez.

Essa mistura de diálogos em inglês e chinês (e não me pergunte o porquê) poderia se tornar um drama sensível sobre as amarras da tradição e preconceito, sobre a solidão na vida de uma médica interina e sobre os desafios que enfrentamos em sociedade para sermos felizes. Porém, fora o fato de ser tudo isso ele não faz pensarmos nessas coisas durante o filme.

Um dos motivos para isso é que ele simplesmente não se importa. Dirigido com uma displicência de quem apenas cumpre tabela, a estreante Alice We começa a delinear esse microcosmos dos chineses morando na América, mas não se concretiza por completo. Ele se desdobra apenas até o momento de termos o dramalhão instaurado e depois vira uma dessas séries em que aguardamos pelo final, felizmente nos divertindo no processo.

Além disso, quando digo microcosmos estou também me referindo aos lugares onde a ação se passa. O hall do hospital e a casa da protagonista parecem fazer parte de um seriado genérico. As ruas, praças e pontes de Nova York, apesar de vermos a cidade que inspirou tantos romances, não está realmente lá. Ela é filmada em um dia nublado e com pressa; quem filmou está se escondendo e não valorizando o privilégio de fazer parte do rol onde cineastas como Woody Allen podem assinar com orgulho, pois introduziu a ponte do Brooklin com o charme que ela merece.

Talvez eu esteja pedindo demais de um romance intimista de baixo orçamento, a conclusão de curso de cinema de alguém que teve a ideia genial de refazer mais uma história por causa da trama novelesca e não pela busca de um cinema novo e fresco. Mas é que se isso é Cinema se dê ao respeito. É uma arte. Nos convença que ela vale mais a pena do que assistir Netflix.

Imagens e créditos no IMDB.
Livrando a Cara ● Saving Face. EUA, 2004. Por Alice Wu, com Joan Chen, Michelle Krusiec, Lynn Chen. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-29. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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