Livre

Baseado no livro autobiográfico “Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail”, a protagonista absoluta do filme são as memórias de Cheryl Strayed, interpretadas pela competente (ou bem escolhida) Reese Witherspoon. No entanto, além de Sheryl, parece haver ainda um espírito maior que quer contar uma história maior. Um espírito interpretado pelo fantasma de sua mãe, a simpática e intensa Bobbi (Laura Dern, quase roubando a cena). Um espírito trabalhado em todo homem e mulher do filme. Um espírito que luta pela liberdade do ser humano independente do seu gênero. Um espírito tão empenhado em conduzir essa tarefa na mente de seus espectadores que avança um pouco o sinal, se tornando quase um manifesto feminista de bolso.

Felizmente, as passagens do filme são extremamente bem conduzidas através dos flashbacks de Sheryl – que já começa a história a caminho da trilha de centenas de quilômetros. Não só isso: o ritmo do “road-movie” é tão incidental, que ele parece acontecer quase que ao acaso, quando na realidade cada evento da travessia é interpretado à luz das memórias de Sheryl e sua visão do mundo, uma visão bipartida em luz e trevas. A luz ela herdou da sua mãe, sempre animada com a vida. As trevas, da doença que fez com que ela morresse aos 45 anos. Recheado de uma trilha sonora inspirada e uma fotografia de tirar o fôlego (o filme tem uma razão de aspecto largo para isso), que consegue elegantemente atravessar tanto um delirante deserto quanto uma absurda camada de neve.

Todas essas virtudes impedem que o filme se transforme em uma mensagem simplória a respeito de um movimento feminista levemente radical. Afinal, de contas, não é à toa que a maioria dos homens são retratados como porcos sedentos por sexo, que usam o elogio como forma de aproximação, não livre de interesses. Porém, não são todos. Há o simpático senhor que cozinha para Sheryl na parada, e há o jovem que acabou desistindo da empreitada antes da nossa heroína. Porém, mais compensador é encontrar outras mulheres pelo caminho, algo que Sheryl faz e que ilumina mais ainda o horizonte.

Talvez o mais importante em assistir Wild é observar uma mensagem se compondo aos poucos através de metáforas, quase parábolas. Se ao mesmo tempo essas mensagens remetem à brutalidade do homem no trato com a mulher, o que é uma realidade forte no passado e ainda presente em diversas culturas, é compensador enxergar um fio de esperança delineando o filme. A esperança de que um dia seremos apenas seres humanos, indivíduos que merecem respeito independente de qualquer coisa, e que são capazes de qualquer coisa. Inclusive andar centenas de quilômetros sem contato com a civilização e sobreviver, sem temer ser estuprada pelo caminho.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-05-05. Livre. Wild (USA, 2014). Dirigido por Jean-Marc Vallée. Escrito por Nick Hornby, Cheryl Strayed. Com Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Keene McRae, Michiel Huisman, W. Earl Brown, Gaby Hoffmann, Kevin Rankin, Brian Van Holt. imdb