Logan
Wanderley Caloni, 2017-03-05

O diretor e roteirista James Mangold apresenta um fechamento de personagem que soa estranho aos fãs da Marvel mais coloridos e menos afoitos com a dura realidade da vida: pessoas morrem nesses filmes.

Logan é o filme que nunca foi filmado sobre os X-Men, talvez pela falta de oportunidade de transformar o bonito discurso em defesa dos gays para um discurso não-tão-bonito em defesa dos imigrantes. Hoje Trump é o presidente da nação mais poderosa do planeta e há na cabeça atônita dos liberais americanos tons alegóricos políticos pálidos o suficiente para tratar dessa questão. Além disso, este é um filme que se passa no universo onde existem mutantes (assim como existem imigrantes), mas onde ninguém mais quer saber deles (assim como os imigrantes).

Mas desculpe se passo adiante de todo o universo fílmico que antecede este trabalho. Ele existe, é referenciado, mas é pouco celebrado, e muitas vezes lamentado. Tudo o que os X-Men lutaram parece se esvaecer com a passagem do tempo, o acúmulo de catástrofes envolvendo mutantes e o envelhecimento dessa causa. Não nascem mais mutantes naturalmente, mas alguns poucos estão sendo produzidos em laboratórios, com patente e tudo. Entre eles, uma menina mexicana que fala espanhol e que pode ser o elo afetivo com uma criatura tão acostumada a se comunicar por golpes afiados e grunhidos como Wolverine. Na verdade, o filme vai além, e evita o caminho fácil para demonstrar, com muita propriedade e naturalidade, o desenvolvimento entre esses dois personagens com base em movimentos instintivos e geralmente com violência envolvida. James Mangold consegue evitar todos os clichês de filmes de super-herói pelo bem de uma narrativa quase crua, depressiva e “dark” o suficiente para nos deprimir incansavelmente por toda a história.

E a violência parece ser a única saída para a comunicação dessas pessoas, seja um mutante rastreador de mutantes (com um fim trágico e com uma mensagem absurda se você ainda estiver acompanhando minha conversa sobre preconceito com imigrantes que explodem coisas) ou até o final tão realista quanto depressivo de um Charles com uma doença cerebral degenerativa, e sua devida consequência: o impacto que isso gera nas mentes humanas mais fracas em torno dele. Mais uma vez os humanos possuem motivos de sobra para desconfiar dos poucos mutantes que restam, e mais uma vez os vilões ainda mantém o velho e eterno plano de fabricar seus próprios mutantes para si.

Mas voltemos a Charles. Seu personagem construído com tanta afinidade por Patrick Stewart é o Charles definitivo. Estamos em um futuro um tanto deprimente, mas Stewart continua a ser essa figura com um caráter inspirado, mesmo que atormentado pelos momentos onde machucou pessoas. Ele não é apenas o velho inconveniente que aceita ir jantar na casa de uma família de desconhecidos (e de onde vem a bondade de estranhos na estrada, liberais? ah, sim: eles são negros), mas o resultado de tantas horas de interação entre os X-Men que perdemos a conta, mas mesmo assim Stewart consegue sintetizar todo o conhecimento adquirido pelo seu personagem em um momento onde ele é um dos últimos sobreviventes de uma causa perdida há décadas.

E Hugh Jackman mais uma vez não faz feio. Ele é Wolverine até o fim, e mantém seu lado impetuoso e instintivo afiado, mas este é um filme onde ele deixou de sê-lo há muito tempo e tenta evitar as duras lembranças do que já foi. Hoje ele se limita a cuidar de um debilitado Charles, e não deixa de ser tocante e uma das melhores cenas do filme vê-lo levando o professor para descansar na cama (um momento que compete de igual para igual com um outro momento icônico, quando uma cruz é deitada para virar um X). Sua fraqueza, uma doença que o mata por dentro, provavelmente fruto de tanto tempo sendo a experiência genética que foi, é demonstrada de maneira um tanto repetitiva pela sua conveniente tosse, mas Jackman consegue a todo momento soar autêntico e real. É o contraponto que estávamos esperando depois de uma sequência ininterrupta de filmes que tratavam apenas do herói em situações fantásticas. Aqui ele é um ser humano em busca de um pouco de paz.

Por outro lado, a pequena Dafne Keen como Laura rouba a cena desde a primeira sequência de luta, em um filme que insiste em ser uma versão alternativa dos filmes de super-herói, podendo muito bem figurar como um filme solo sobre um cara que tem umas garras na sua mão. Não faria diferença para quem nunca ouviu falar de mutantes. E nesse sentido Laura Kinney já nasce como a X-Men de uma nova geração. Ela obtém o bastão entregue por Wolverine de maneira tão enfática que Logan se torna facilmente apenas a sombra do que foi um dia, mas de uma forma menos dolorosa ao sentir a energia da primeira mutante com energia vista no longa depois de uns bons 30 minutos de desespero.

Apesar de longo e arrastado, “Logan” é um estudo fascinante de um universo pós-apocalíptico dos X-Men que se finge de drama/ação “dark” gerando mortes além do necessário (mas evitando matar crianças na tela, é claro). É um filme depressivo, mas que deixa um pequeno rastro de esperança para as próximas gerações. Se há um reboot à frente, ele é devidamente merecido, pois foi indubitavelmente ancorado em um filme que termina uma era de heróis apresentando um filme sobre seres humanos vivendo o eterno drama da existência: como conviver com os outros e suas diferenças sem ser massacrado.

★★★★☆ Logan. USA. 2017. Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Scott Frank, Michael Green, Craig Kyle, John Romita Sr, Roy Thomas, Herb Trimpe, Len Wein, Christopher Yost. Elenco: Hugh Jackman (Logan), Patrick Stewart (Charles), Dafne Keen (Laura), Boyd Holbrook (Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Elizabeth Rodriguez (Gabriela), Richard E. Grant (Dr. Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson). Edição: Michael McCusker, Dirk Westervelt. Fotografia: John Mathieson. Trilha Sonora: Marco Beltrami. Duração: 137. Aspecto: 2.35 : 1. Action. Estreia no Brasil: 2 March 2017. #emcartaz