Loucas de Alegria

Aug 17, 2016

Imagens

Valeria Bruni Tedeschi faz uma personagem bipolar aparentemente rica e de bom gosto que quase arrebata todo o filme para si. Felizmente, ela tem que competir o tempo de tela com a sutil e complexa Micaela Ramazzotti em um papel difícil, mas que justamente por isso torna a união entre as duas algo único no Cinema… quase como Thelma & Louise.

Eis as história: duas loucas se conhecem em um manicômio chamada de “Vila”, onde psiquiatras e psicólogos tentam reverter seus quadros clínicos para serem reabilitados a viver em sociedade. Beatrice Morandini Valdirana (Tedeschi) é lúcida, mas eufórica e impaciente. Donatella (Ramazzotti), ainda abalada pelos acontecimendo que a fizeram ser internada, é triste e deprimida.

No entanto, esse quadro tente a se mesclar para um estudo não de um, mas de dois personagens. Com certeza Donatella é a protagonista única, pois seu arco se completa de maneira muito mais satisfatória, e apesar de inerte, é ela que move a ação do filme. Já Beatrice é a energia e a vida do roteiro, que consegue levá-lo para onde quiser com seu sorriso, frases rápidas e ações instintivas que arrancam o riso da plateia de maneira natural.

Cada detalhe do roteiro de Francesca Archibugi e Paolo Virzì (que dirige o filme) se desdobra de maneira natural, e faz parte da história. Não há momentos expositivos, pelo menos não em demasiado. Mas há muitos momentos “enquadráveis”, não pela beleza da fotografia (que é competente), mas pela situação que essas duas chegaram. São acontecimentos tão divertidos, embalados pelo mistério de seus passados, que o filme se transforma em uma série de descobertas em torno dessas duas, e ao mesmo tempo, um misto de emoções que se desdobram conforme descobrimos esse ou aquele detalhe.

Aliás, há algumas coincidências do filme, nem todas justificáveis, mas factíveis. Minha favorita é a referência absoluta a Thelma & Louise, que funciona justamente pela empatia que as duas moças já comprovaram aos espectadores. Não precisamos de muito mais para aceitar essa pequena “licença poética”.

O diretor Paolo Virzì sabe o que faz. Torna as sequência com Beatrice ágeis, com cortes ríspidos e câmera na mão, assinalando fluidez. Já para Donatella há um misto (pois ela está com a amiga), mas em momentos que está sozinha, a vemos cabisbaixa, observadora, querendo esboçar um sorriso ou simplesmente querendo morrer. Um sorriso é algo custoso para a personagem após um evento trágico, e ela se refugia em algumas ilusões a respeito do seu pai, e demonstra no caminho como seres humanos cruéis podem deturpar a mente de uma pessoa desde cedo.

Este é um filme falado em um italiano simplesmente adorável, com diálogos leves que conseguem poetizar acontecimentos trágicos. É lindo apenas de ver as frases sendo ditas, mas é imprescindível que os personagens tenham de fato algo a dizer. Felizmente, estamos lidando com pessoas tridimensionais, que nunca piscam para a câmera, mas para si mesmas. Uma relação de cumplicidade quase que surreal. Uma mistura entre O Beijo da Borboleta, O Lado Bom da Vida e Thelma & Louise. Quantas vezes já falei de Thelma & Louise?

Wanderley Caloni, 2016-08-17. Loucas de Alegria. La pazza gioia (Italy, 2016). Dirigido por Paolo Virzì. Escrito por Paolo Virzì, Paolo Virzì, Francesca Archibugi. Com Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi, Valentina Carnelutti, Marco Messeri, Bob Messini, Roberto Rondelli, Anna Galiena, Tommaso Ragno, Sergio Albelli. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).