Love

O último filme do argentino Gaspar Noé (Irreversível, Viagem Alucinante) tem um tom autobiográfico demais para ficarmos confortáveis com as diversas introspecções sexuais às quais os personagens se entregam. Porém, o mais perturbador está longe de ser o sexo: mas o seu resultado. Preso em uma casa com a mãe de seu filho indesejado, o protagonista agoniza lentamente enquanto revive os momentos com sua verdadeira amada. Com certeza os “pró-vida” não estão dispostos a dialogar a respeito não dos que nunca nasceram, mas os que nasceram e agora são reféns eternos de um orgasmo inesperado.

A história é uma série de flashbacks de Murphy (Karl Glusman), o rapaz preso a uma situação que nunca quis: viver com sua vizinha, Omi (Klara Kristin), e o filho que teve acidentalmente com ela. Cineasta que busca realizar um trabalho que julga inexistente no cinema – o sexo visto como ator principal, e não um coadjuvante de passagem – agora possui as memórias de sua verdadeira amante eterna, Electra (Aomi Muyock), que sumiu depois de descobrir que Murphy a traiu – não sexualmente, mas por engravidar a mulher errada.

Filmado tendo como centro sensitivo as diversas cenas de sexo real entre os atores, a trilha sonora inspirada denota um ritmo mecânico ao ato, mas ao mesmo tempo o filme utiliza as diferentes formas de fazê-lo como uma maneira de se expressar – no que acerta em cheio. Todos os momentos íntimos importantes da história – principalmente o sexo a três que gerou a ramificação inesperada da relação – estão aí para ilustrar, e na memória de Murphy, são exatamente esses momentos que importam. Atingindo um grau de niilismo impregnado de drogas, os personagens no filme possuem o tom démodé existencialista de filmes de Godard, mas pelo menos fazem sexo.

E como fazem. Escolhidos a dedo, o elenco é eficaz fisicamente, expressando seus sentimentos através dos movimentos do pênis, da vulva, dos lábios, das mãos, das pernas e todo o resto. Esse poderia ser mais um filme pornô glorificado, mas se torna algo mais justamente pela estrutura empregada por Noé, que transforma tudo aquilo em uma visual sensorial pelos pensamentos atordoados do rapaz.

Porém, não é só de artistas depressivos que se move uma história, e a repetição do desespero de Murphy chega um momento que cansa. A história sendo contada é interessante, os momentos picantes possuem seu gosto estético, mas artistas chorando são de matar. Como uma criança mimada que nunca conseguirá atingir a puberdade, Murphy se desloca entre as paredes de seu apartamento, se vendo como prisioneiro em sua própria casa (como ele mesmo descreve). As tomadas são quase todas estáticas ou subjetivas, e exercem uma força de enclausuramento eficaz.

Tendo um terceiro ato extremamente auto-indulgente, o novo trabalho de Gaspar Noé é mais uma viagem de ácido, mas (muito bem) regada com sexo. É um passo a mais sobre a total desesperança do niilismo inconsequente, e um filme para os que desejam adentrar em uma nova forma de expressão: a movimentação sinuosa da pele e dos pelos pubianos.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-31. Love. Love (France, 2015). Dirigido por Gaspar Noé. Escrito por Gaspar Noé. Com Aomi Muyock, Karl Glusman, Klara Kristin, Ugo Fox, Juan Saavedra, Gaspar Noé, Isabelle Nicou, Benoît Debie, Vincent Maraval. imdb