Lovelace

Aquele tipo de filme que não caminha para o melhor nem para o pior. Sua falta de ambição e sensualidade destoam completamente dos burburinhos e do sucesso escandaloso do único trabalho pornográfico protagonizado por Linda Lovelace (Amanda Seyfried), Garganta Profunda, que representou para muitos um marco na revolução sexual da época, enquanto para outros o renascimento do pornô como “Cinema”.

Aliás, todo o suspense do “making off” se revela inapropriado, pois não existe praticamente nada de fato chocante sobre o destino de uma personagem que já parece ensaiar sua entrada no mundo do sexo livre desde os primeiros segundos (uma cena de topless extremamente comportada). Já o excesso de puritanismo revela mais sobre a indústria de Cinema atual do que o daquela época, onde mostrar os seios da protagonista, que já participou de comédias românticas engraçadinhas (Cartas para Julieta), pode por si só ser considerado um ato de rebeldia.

Ainda assim a crítica moral (para alguns, religiosa) sobrevive e meio que compensa o resultado final, e há um arco inesperado vindo de uma surpreendente participação de Sharon Stone, irreconhecível e que desempenha o papel mais multifacetado do longa sem sequer dizer muitas palavras. Desanimador mesmo é acompanhar o aborrecente marido, que deveria necessariamente ser uma figura mais ameaçadora do que se apresenta. Sua predisposição em ficar violento talvez não tivesse encontrado amparo em uma narrativa que se divide em dois: a vida pública e privada do casal.

Mesmo com seus problemas estruturais, é uma narrativa ágil e que merece créditos por prender nossa atenção constantemente. Diga-se de passagem, compete com uma direção de arte e figurino que parecem querer chamar a atenção para si mesmos a todo momento (a exceção é um divertido reflexo de um enfeite no espelho que simula pernas abertas). De certa forma até a irregular fotografia parece fazer isso ao mudar constantemente o tamanho do seu grão, que inicia muito maior (ou seja, o filme fica com um aspecto caseiro) e vai aos poucos desistindo do efeito em pró da boniteza dos cenários. Sem contar que é ela que exibe as cores gritantes e óbvias das roupas dos personagens, um artifício que dá realismo histórico e tira todo o peso de um drama que parece querer aparecer.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-09-18 imdb