Lucky

2017/12/07

No princípio não havia nada. E é pra lá que estamos indo todos nós. Viemos sozinhos e vamos para lá sozinhos. Mas eu disse sozinhos, não solitários.

Lucky, último filme do ator Harry Dean Stanton, que faleceu esse ano com 91 anos, demonstra diversas energias funcionando ao mesmo tempo para a produção de um trabalho leve e ao mesmo tempo poderoso. Primeiro filme dirigido pelo ator John Carroll Lynch (Fargo e uma lista enorme), e primeiro roteiro de uma dupla de atores, este filme poderia não ser nada o que ele é. Talvez o que o faça ser algo seja a participação curiosa de David Lynch, que faz o vizinho Howard, que perdeu sua tartaruga. Ops, cágado. Presidente Roosevelt é o nome dele. Do cágado.

“Existem muitas coisa maiores do que nós mesmos”, diz Howard em um daqueles momentos no bar. “E uma delas, senhoras e senhores, é um cágado.” Um cágado vive mais de 100 anos, alguns chegam em 200 anos, e andam lentamente, caminhando o que um dia virá a ser seu caixão. Não há nada mais simbólico que isso para representar a resiliência de Lucky, um senhor de mais de 100 anos que possui uma saúde ótima de acordo com seu médico, e tem pulmões intactos apesar de fumar cerca de um maço de cigarros todos os dias. E todos os dias Lucky realiza sua rotina de acordar, ligar o rádio, tomar café, ir na lanchonete, xingar as meretrizes de um inferninho, jogar suas palavras cruzadas, assistir seus programas de perguntas e respostas, e beber no bar com os amigos no final do dia. É o hábito que faz o monge. Outro simbolismo.

A produção do filme é belíssima. Ela inicia com letreiros grandes e amarelos como aqueles filmes antigos com alguma coisa para dizer. Sua trilha sonora é baseada na gaita que Lucky toca de vez em quando e nos sons ao redor do vilarejo onde todos se conhecem. A fotografia exalta cores celestiais disfarçadas. Azul (roupas e detalhes), dourado (terra e poeira), preto (céu à noite e bar) e branco (mercearia onde compra seu leite, consultório do médico). O figurino de Lucky é mais relevante quando ele está de pijamas, em vestes brancas não sujas, mas de um ser autêntico.

Sua “iluminação” surge quando ele cai. Ele não desmaia. Ele não sente enjôo. Ele simplesmente cai. Depois daquele dia ele continua com a saúde perfeita, mas tem medo. Ele percebe que faz parte de algo maior? Ele está lúcido? Não sabemos ao certo. Nada muda em sua rotina. Simples, assim.

“Realismo é uma coisa.” Eis o seu insight. Palavras simples permeiam a filosofia deste homem e seus amigos, e situações simples, e causos divertidos de ouvir, mas profundos, são a colcha de retalhos que remete significado ao longa. Quando alguém se levanta e diz algo no bar, todos ouvem com cerimônia. Há muitos encontros neste filme. Encontros casuais, momentos solenes por pura casualidade. Não é um filme que tenha tensão, drama ou qualquer outro sentimento barato, pois ele não exije. Ele apenas exije que você, caro espectador, acorde.

Você talvez não saia de sua casa para ir assistir a um “filme parado” onde “nada acontece”. Bom, você está certo. E está vivo. Todos nós estamos. Por um breve momento no universo. E Lucky demonstra que filme podem emergir como universos, meio que do nada, e para o nada eles irão. Como foi o ator Harry Dean Stanton. Como eu irei. Como você irá. Todos vamos sozinhos. Mas essa não precisa ser uma viagem solitária.

★★★★★ Lucky. USA, 2017. Direction: John Carroll Lynch. Script: Logan Sparks. Drago Sumonja. Cast: Harry Dean Stanton (Lucky). David Lynch (Howard). Ron Livingston (Bobby Lawrence). Ed Begley Jr. (Dr. Christian Kneedler). Tom Skerritt (Fred). Beth Grant (Elaine). James Darren (Paulie). Barry Shabaka Henley (Joe). Yvonne Huff (Loretta). Edition: Robert Gajic. Cinematography: Tim Suhrstedt. Soundtrack: Elvis Kuehn. Runtime: 88. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Drama. Release: 7 December 2017. Category: movies Tags: cabine

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