Lumière! A Aventura Começa

2017/12/02

Os inventores do equipamento que permitiu o surgimento da sétima arte filmaram cerca de 1400 filmes. A maioria tinha a duração de 50 segundos, o limite do primeiro rolo. Além de completamente mudo e operador por pessoas que nunca tiveram a experiência que temos de Cinema e que testemunhavam o nascimento não de uma arte, mas de uma invenção para o entretenimento. E, mesmo assim, em 108 dessas filmagens, é possível observar como, da mesma forma com que o cérebro humano cria movimento, o espectador emerge de um trabalho consciente em enxergar naquela série de imagens uma história, uma moral, uma narrativa e uma emoção.

Já havia sugerido um recorte do A.V. Club com os 10 melhores filmes da década de 1890. Já são trabalhos de respeito. Porém, o que o diretor Thierry Frémaux faz aqui é trazer um trabalho árduo de restauração, arquivamento, levantamento histórico e ainda uma narração (do próprio diretor) que tenta buscar sempre nessas cenas de 50 segundos o surgimento da arte cinematográfica. Nem que seja por acidente. Ele vê que os operadores já estavam preocupados naturalmente com questões que já nasceram junto da invenção, mas que fazem parte da linguagem artística, como enquadramento, movimento da câmera, narrativa, roteiro, profundidade de campo, mise en scene.

A forma com que ele explica em seu texto esses nuances é usando um pouco de humor, um pouco de didática e um pouco de diversão. Os irmãos Lumière sempre defenderam o cinema como entretenimento para as massas (um teatro não tão caro). Este filme mantém a visão original dos inventores, mas ao mesmo tempo arrisca ensinar o espectador médio sobre um travelling, um enquadramento. Nós vemos o entusiasmo na voz do diretor falando sobre isso, e qualquer cinéfilo também ficaria. Mas dane-se, este é um filme de e para cinéfilos. Não é para amadores.

Mas não é por isso que se esquece do entretenimento. Há vários curtas no meio desses 108 do filme que são divertidos, curiosos, nostálgicos e no mínimo interessantes. Isso por si só já valeria o seu ingresso. Principalmente se você gosta de história.

Mas, fora isso, aqui há uma grande homenagem à sétima arte. Uma homenagem e um pedido de desculpas. Desculpas pela perda lastimável desses rolos. O Cinema nunca foi muito bem visto como arte no começo (até hoje não é) porque ele se funge tão bem com entretenimento que ninguém liga. E não deveria, mesmo. Ele é a última forma de arte, o pós-moderno, pós-Revolução Industrial que está em constante evolução, para sempre. E o passado sempre será perdido, transformado e renovado. E este filme sobre os Lumière faz exatamente isso.

★★★★★ Lumière!. France, 2016. Direction: Thierry Frémaux. Script: Thierry Frémaux. Cast: Thierry Frémaux (Narrator). Martin Scorsese (Himself). François Clerc (The Gardener). Benoît Duval (The Boy). Leopoldo Fregoli (Himself). Loie Fuller (Herself). Madeleine Koehler (Herself). Mrs. Auguste Lumiere (Herself). Andrée Lumière (Himself). Edition: Thierry Frémaux. Thomas Valette. Runtime: 90. Ratio: 1.33 : 1. Gender: Documentary. Category: movies Tags: cabine

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