Lunar

Oct 6, 2015

Imagens

Três anos. Apenas isso, e termina o contrato entre Lunar, uma corporação que domina o ramo de energia na Terra, e Sam (Sam Rockwell), o trabalhador solitário da estação de coleta de Hélio 3 na Luz. Como única companhia, Sam dispõe de GERTY (Kevin Spacey), um computador que reconhece a voz e o sentimento do astronauta. Em “Lunas”, curiosamente, a única voz amiga do ser humano é um programa cibernético.

O primeiro longa do diretor e roteirista Duncan Jones flerta necessariamente com seu primo distante, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, mas as coincidências terminam na solidão do espaço e na companhia robótica, quando um mundo regido por uma corporação e a clonagem humana tomam lugar nesse thriller dramático com toques de ficção científica na medida certa. Aqui o futuro só existe para criar este pequeno simulacro da pequenez humana frente não apenas às grandes corporações e a Inteligência Artificial, mas frente aos seus próprios limites na natureza.

Criando uma narrativa fina e sempre em constante movimento – quase apressada – que se beneficia de uma trilha sonora (Clint Mansell) não excelente, mas quase empolgante, Lunar reconhece suas limitações artísticas, preferindo não entrar muito em questões periféricas – como o funcionamento da estação lunar, alimentação, processo de clonagem e até mesmo a necessidade de um processo tão complexo com a desculpa de “economia” para a empresa – e focando na relação entre Sam, GERTRY e o outro Sam. Tendo como seus melhores momentos a interação desse trio, o filme se propõe a esticar um quase-conto para uma hora e meia de uma simpática história que não atravessa muitos limites mesmo tratando de temas espinhosos.

Filmado por dentro quase sempre com a visão do teto, dando um sentimento claustrofóbico, e por fora quase sempre de longe, dando um sentimento de isolamento acachapante, a história mantém uma dinâmica simples que envolve a rotina do operário lunar em torno do coletor da fonte de energia na Terra, enquanto se distrai construindo uma maquete de sua cidade natal, revê os vídeos de sua esposa que aguarda seu retorno junto de sua pequena filha, além de manter seu corpo saudável. Dessa forma, o estranhamento da piora súbita de seu corpo soa ainda mais conspiratório do que apenas um acidente, além de através dessas poucas informações o roteiro conseguir entregar pistas contextuais do que realmente está acontecendo (como Sam não se lembrar direito quais edifícios fez da maquete, ou qual foi a última vez que conseguiu contato direto com a base).

Com uma conclusão mais simplista que todo seu desenvolvimento, Lunar com certeza ainda vai continuar sendo um filme favorito de alguns cinéfilos, além de gerar discussões em torno de seus temas em conversas de bar. Como sempre, esses são os sintomas necessários de uma ficção científica que cumpre a grande tarefa deste gênero: discutir o mundo em que vivemos falando de outros mundos possíveis.

Wanderley Caloni, 2015-10-06. Lunar. Moon (UK, 2009). Dirigido por Duncan Jones. Escrito por Duncan Jones, Nathan Parker. Com Sam Rockwell, Kevin Spacey, Dominique McElligott, Rosie Shaw, Adrienne Shaw, Kaya Scodelario, Benedict Wong, Matt Berry, Malcolm Stewart. IMDB.