M, O Vampiro de Dusseldorf

Esse é um filme que explora a moral de um assassino de uma maneira tão absurda e dúbia quanto seus momentos cômicos. O expressionismo de Fritz Lang (e o alemão) colaboram para um filme hoje engraçado em alguns momentos, quando uma pessoa segura um fósforo aceso na mão à espera de uma resposta, mas hipertensos em outros, quando os argumentos de um inesperado advogado de defesa revelam uma relativização perigosa da ação e liberdade humanas, e uma discussão sobre direitos igualmente fascinante.

A história é simples: um assassino de crianças está à solta. Toda a população fica em pavorosa, os policiais não fazem outra coisa senão tentar encontrar provas, e até os criminosos se reúnem para resolver esse caso de uma vez por todas e tornar seus “negócios” mais tranquilos, sem a polícia atrapalhando todo dia. Há um momento especialmente inspirado no filme em que uma reunião de uma gangue influente na região e os responsáveis pela segurança da cidade ocorre em paralelo, e é onde a edição de Paul Falkenberg brilha, e onde o argumento moral de Fritz Lang começa a dar seus ecos de que há algo de errado quando a lei e o crime “se unem” para resolver um problema.

Criando quadros que exalam o expressionismo alemão, aquele momento na sétima arte onde a perspectiva dos cenários é exagerada, assim como as expressões dos personagens e o uso cartunista da luz, vemos o comissário do departamento de homicídios de baixo para cima, mais precisamente de baixo da mesa de seu gabinete. Vemos os policiais varrendo as ruas como cerdas de uma vassoura implacável. O uso do som (e da ausência dele) é evidenciada neste que é um dos filmes da safra dos primeiros anos em que filmes falados começavam a se tornar viáveis tecnicamente. Os atores, aparentemente improvisados, são pontuais em suas atuações, o que torna cada fala e momento poderosa em sua função dentro do filme. Até uma pequena fala de um cego vendedor de balões ecoa como uma profecia solene. E dentro das sequências, o que dizer do “resgate” no prédio, um momento vital e intrincado, cuja lógica espacial e temporal é usada para demonstrar como a tensão consegue ser construída pela passagem do tempo em lugares diferentes.

Porém, tudo isso, por mais fascinante que seja, empalidece diante de um tribunal improvisado e falas (ou gritos) que evocam uma relativização dos atos que soa até profético se compararmos a evolução da Alemanha pós-Primeira Guerra e que vai aos poucos erguendo, das cinzas e da humilhação de seu povo, um movimento extremista onde tudo parece ser válido. Uma discussão que coloca no mesmo patamar o assassinato de crianças comparado com o vício em jogos, bebidas e prostituição não poderia ser levado a sério, não estivéssemos ou em uma roda de comunistas discutindo moral ou em um filme de Fritz Lang, que até hoje, leva seus espectadores em um debate mental acirrado a cada novo diálogo.

Mais um dos filmes restaurados por organizações empenhadas em desencavar grandes clássicos das primeiras fases do Cinema, Fritz Lang é um diretor tão inventivo e genial quanto azarado. Tanto seu grande clássico, Metrópolis, que ficou perdido por décadas, quanto este “M”, são filmes que não existiriam mais, não fosse a obstinação de cinéfilos preocupados com a sétima arte e seu legado. Graças a essas pessoas temos a chance de presenciar como o Cinema já era grande como arte em tão pouco tempo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-01-21 imdb