M, O Vampiro de Dusseldorf

Jan 21, 2016

Imagens

Esse é um filme que explora a moral de um assassino de uma maneira tão absurda e dúbia quanto seus momentos cômicos. O expressionismo de Fritz Lang (e o alemão) colaboram para um filme hoje engraçado em alguns momentos, quando uma pessoa segura um fósforo aceso na mão à espera de uma resposta, mas hipertensos em outros, quando os argumentos de um inesperado advogado de defesa revelam uma relativização perigosa da ação e liberdade humanas, e uma discussão sobre direitos igualmente fascinante.

A história é simples: um assassino de crianças está à solta. Toda a população fica em pavorosa, os policiais não fazem outra coisa senão tentar encontrar provas, e até os criminosos se reúnem para resolver esse caso de uma vez por todas e tornar seus “negócios” mais tranquilos, sem a polícia atrapalhando todo dia. Há um momento especialmente inspirado no filme em que uma reunião de uma gangue influente na região e os responsáveis pela segurança da cidade ocorre em paralelo, e é onde a edição de Paul Falkenberg brilha, e onde o argumento moral de Fritz Lang começa a dar seus ecos de que há algo de errado quando a lei e o crime “se unem” para resolver um problema.

Criando quadros que exalam o expressionismo alemão, aquele momento na sétima arte onde a perspectiva dos cenários é exagerada, assim como as expressões dos personagens e o uso cartunista da luz, vemos o comissário do departamento de homicídios de baixo para cima, mais precisamente de baixo da mesa de seu gabinete. Vemos os policiais varrendo as ruas como cerdas de uma vassoura implacável. O uso do som (e da ausência dele) é evidenciada neste que é um dos filmes da safra dos primeiros anos em que filmes falados começavam a se tornar viáveis tecnicamente. Os atores, aparentemente improvisados, são pontuais em suas atuações, o que torna cada fala e momento poderosa em sua função dentro do filme. Até uma pequena fala de um cego vendedor de balões ecoa como uma profecia solene. E dentro das sequências, o que dizer do “resgate” no prédio, um momento vital e intrincado, cuja lógica espacial e temporal é usada para demonstrar como a tensão consegue ser construída pela passagem do tempo em lugares diferentes.

Porém, tudo isso, por mais fascinante que seja, empalidece diante de um tribunal improvisado e falas (ou gritos) que evocam uma relativização dos atos que soa até profético se compararmos a evolução da Alemanha pós-Primeira Guerra e que vai aos poucos erguendo, das cinzas e da humilhação de seu povo, um movimento extremista onde tudo parece ser válido. Uma discussão que coloca no mesmo patamar o assassinato de crianças comparado com o vício em jogos, bebidas e prostituição não poderia ser levado a sério, não estivéssemos ou em uma roda de comunistas discutindo moral ou em um filme de Fritz Lang, que até hoje, leva seus espectadores em um debate mental acirrado a cada novo diálogo.

Mais um dos filmes restaurados por organizações empenhadas em desencavar grandes clássicos das primeiras fases do Cinema, Fritz Lang é um diretor tão inventivo e genial quanto azarado. Tanto seu grande clássico, Metrópolis, que ficou perdido por décadas, quanto este “M”, são filmes que não existiriam mais, não fosse a obstinação de cinéfilos preocupados com a sétima arte e seu legado. Graças a essas pessoas temos a chance de presenciar como o Cinema já era grande como arte em tão pouco tempo.

Wanderley Caloni, 2016-01-21. M, O Vampiro de Dusseldorf. M (Germany, 1931). Dirigido por Fritz Lang. Escrito por Thea von Harbou, Fritz Lang, Egon Jacobson. Com Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Otto Wernicke, Theodor Loos, Gustaf Gründgens, Friedrich Gnaß, Fritz Odemar, Paul Kemp. IMDB.