Mad Max: Estrada da Fúria

Quando vi Kingsman estava convicto que qualquer filme de ação esse ano seria uma versão menor deste trabalho exemplar do que o uso da paródia com toques de realismo pode fazer. Até tomar coragem e ir conferir na telona esse novo Mad Max, que retorna aos anos 80 (ou 1979, estreia do original), mas mantém sua ideologia com um pé nos anos atuais enquanto realiza não só uma homenagem, mas uma redimensionada na série de filmes que estava já há algum tempo esquecida.

Dirigido e co-escrito pelo mesmo George Miller do original e suas continuações, a história gira em torno de um futuro pós-apocalíptico que causa um estrago na fertilidade do solo, tornado os seres humanos uma raça escassa e, “graças” aos efeitos da radiação, ainda doente por armas de guerra movidas a gasolina.

Mantidos sob uma ração de água controlada pelo todo-poderoso Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, nada menos que o Toecutter do filme original), os humanos se dividem em castas bem definidas em torno de seu ditador. Há os miseráveis que veneram Joe para conseguir recursos de sobrevivência. Há as “parideiras”, mulheres que são propriedade de Joe e cuja função é gerar bebês. Desses bebês surgem os guerreiros comandados por Joe, jovens doutrinados a sacrificarem suas vidas por um bem maior: a pós-vida em um lugar paradisíaco que irá recompensar sua luta do “lado certo”.

Com essa explicação, não é preciso nem explicar que Mad Max: Estrada da Fúria está devidamente atualizado para o mundo em que vivemos hoje, onde o poder em torno de recursos desejados pelo mundo todo (ex: o petróleo) é um mecanismo usado para manter no poder ditadores que usam também a religião para montar um exército de fiéis dispostos a dar sua vida por uma causa inserida em suas mentes. O mais curioso é que podemos estar falando tanto do lugar-comum que é o Oriente Médio quanto dar abertura a interpretações mais abrangentes, como o episódio recente da guerra do Iraque, onde os EUA, de certa forma, enviaram soldados com motivos obscuros o suficiente para ser confundido com uma religião chamada patriotismo. Já há um filme, American Sniper, que retrata muito bem esse lado nefasto da mente americanizada, e Mad Max parece jogar de ambos os lados, se tornado portanto uma análise muito mais rica e abrangente da situação sócio-econômica do mundo.

Ainda utilizando o protagonista do original, aqui interpretado por Tom Hardy, Max é assombrado pelo fantasma das pessoas que ele tentou ajudar e não conseguiu, principalmente uma menininha (provavelmente inserida em alguma das continuações, não me lembro mais). Isso faz com que ele se sinta melhor em torno de pessoas ainda vivas e lutando por um pouco de esperança. Entre elas, a traidora de Joe, Imperadora Furiosa (Charlize Theron), que é a protagonista de fato dessa continuação. Theron aqui realiza um dos seus melhores trabalhos, mantendo uma persona forte do começo ao fim, mas aqui e ali deixando escapar seu desejo de conseguir voltar no tempo e reencontrar o seu desejado Vale Verde, onde as coisas tentam voltar a ser como antes. Aliás, esse é mais um filme que poderia ser rotulado de feminista, se não fosse muito mais, como em Wild, um filme onde o lado mais fraco se ergue e tem sede de justiça.

É por isso que, além de Furiosa e Max, há um novo elemento que se torna vital para compreendermos a dimensão do que é explorado. Nux (Nicholas Hoult) é um dos jovens dispostos a se sacrificar por um pós-vida acalentador, mas aprende que existem coisas na vida mais importante pelo qual se sacrificar. Aprende rápido demais, convenhamos. Porém, ainda assim a lição permanece sendo sobre o lado mais fraco, seja mulher ou não. E a interpretação de Hoult, que fez o Fera na série X-Men, é precisa justamente por conseguir expor a fragilidade de sua mente em ser influenciável. Pequenos gestos, como a expressão que ele faz quando Max entrega a ele o volante recuperado, é o que torna mais valiosa ainda sua participação no trio principal.

E, por fim, o Max de Tom Hardy parece de fato ser a nossa visão de espectador assombrado. Max também pode ser rotulado de “Mad”, mas não tanto quanto o mundo que este observa. Todos somos loucos em menor ou maior grau, mas é a loucura do mundo exterior que faz nossos instintos observem o nosso eu interior, e por comparação tentem determinar se estamos mais ou menos loucos do que o mundo em que vivemos. A expressão dura de Hardy ao mostrar um personagem que já viveu muito disso, mas ao mesmo tempo suas expressões de espanto ao que vai acontecendo ao seu redor, é o que o torna a âncora moral do filme. E sempre é bom lembrar que ele não é mais do que um instrumento de apoio para que os seres dominantes da história, as mulheres, consigam o que querem.

Mas, falando desse mundo, vamos aos efeitos, às explosões e à loucura, pois tão importante quanto a história é o mundo onde ela se passa. Aqui ele ganha uma representação digna de 2015, onde digital e analógico se juntam para entregar uma das experiências mais alucinantes no Cinema atual. A fotografia estilizada em cores absurdamente quentes ou frias combina com os personagens igualmente estilizados em tons quase oníricos (de um pesadelo, no caso). Há figuras das mais absurdas, como um guitarrista pendurado na frente de um veículo com batucadores de tambor ao fundo. Não vou perder seu tempo descrevendo todos eles: você precisa ver para crer. Imagine tudo o que pode ser criado com maquiagem e computação para ampliar o universo de Mad Max, e verá tudo ali representado em seu máximo potencial. É surreal ao ponto de incomodar talvez alguns espectadores, levar ao delírio outros, e divertir a maioria (eu incluso). Acredite: sempre haverá algo diferente para ver na tela antes do filme acabar.

Da mesma forma, a trilha sonora é um objeto de desejo à parte. Além de comentar de forma competente cada momento do filme, seja ele dramático, filosófico ou pancadaria na estrada, ele tenta se sobressair ainda mais, e se torna uma música de fundo para a diversão que os olhos recebem. Eu conseguiria fechar meus olhos e ainda me divertir com essa trilha sonora, “reimaginando” as cenas em que elas são inseridas. Estou ouvindo ela agora. Vou ouvir ela ainda por alguns dias, semanas e meses. Nesse sentido, ela faz justiça ao filme em que está inserida, pois são poucos os filmes que me lembro que tenham me feito desejar revê-los assim que eles acabaram. Mad Max com certeza é um deles.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-05-22 imdb